quarta-feira, 11 de setembro de 2019

[Opinião] Uns e Outros: Contos Espelhados - Helena Terra e Luiz Ruffato (org.) #242

https://www.skoob.com.br/uns-e-outros-contos-espelhados-692361ed695338.html
Editora: Dublinense

N° de Páginas: 266

Sinopse:
  A ideia do livro foi que dez autores lusófonos escolhessem um conto cada, de um autor considerado clássico, para servir de inspiração para uma releitura original. Desta forma, o debate vai girar em torno das influências literárias, do processo de recriação de obras clássicas e dos efeitos do espelhamento resultante dessa experiência.


Opinião:
  Devo admitir que já não me lembro muito bem dos detalhes de cada um dos contos, incluindo o que abre a coletânea chamado Eveline, do James Joyce, o que faz com que eu não me lembre muito também do seu espelho, o conto A Morte da Mãe, da Beatriz Bracken, algo me diz que ambos se passam no mar, ou no litoral, mas posso estar enganado.
  Depois disso vem um dos contos que mais gostei, O Fim de Algo, de Ernest Hemingway, onde temos um casal que começa a discutir a relação e tem um final que pode ter diferentes interpretações, Luiz Antônio de Assis Brasil escreveu Início de Alguma Coisa, que dá continuidade a história dos personagens de Hemingway e nos mostra uma visão única e surpreendente do conto que o precede.
  Depois temos Os Desastres de Sofia, de Clarice Lispector, que confesso ter sido um conto que me incomodou ele é um caso de interesse entre uma menina e seu professor, mais o interesse dela, pelo menos.
"Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e me ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito."
  Já no conto espelho, escrito por Eliane Brum e nomeado de Simplício, onde temos a visão do professor, que consegue ser mais perturbador ainda.
"E foi com esse estado de espírito que ancorei naquela manhã, grogue de sono, esquecido da vergonha que eram aquelas lições que eu aplicava ano após ano, escola após escola, como um professor dedicado a desensinar, profanando a língua que eu amara um dia com o ressentimento reservado a uma amante que me renegou sem ao menos ter me amado."
  Chegamos então ao primeiro conto de Machado de Assis, que aparece três vezes nessa coletânea, a primeira com a história Teoria do Medalhão, onde o pai vai discorrer com o filho sobre a vida, o universo e tudo mais, principalmente falando sobre sua visão politizada do mundo.
"Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; setenta e cinco por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-se-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável."
    Então vem Milton Hatoum e espelha Machado escrevendo O Futuro Político (Primeiro Ato), esse livro é também um diálogo entre pai e filho, mas diferente do conto do Machado, aqui o filho tem voz e há realmente uma conversa, e não um monólogo do pai.
"- De onde tirou isso? [...] - Tirei do teu discurso inflamado, das citações literárias... Muitos jovens se revoltam sem saber que estão traindo a si mesmos. Um político não deve citar grandes dramaturgos ou poetas, ninguém vai entender... A imensa maioria da nossa classe política é tosca, ignorante e pérfida..." Ele desconhece o conceito de crítica velada

  Vamos então para o conto mais revoltante, que dá vontade de pegar uma das personagens e estapear até essa criatura virar gente, é o conto Negrinha, do Monteiro Lobato, já vi muita gente acusando o autor de racismo, isso antes de eu ler esse conto, mas a meu ver esse conto é muito mais uma crítica ao tratamento sub humano que era desferido aos negros no período da escravidão ou logo depois dele do que uma exaltação a esse comportamento revoltante.
  Ana Maria Gonçalves traz então o tema do racismo aos dias atuais, onde uma criança negra sofre na escola uma nova versão das torturas que a menina do conto de Lobato sofre.
  Machado de Assis aparece novamente na coletânea trazendo o conto Pai Contra Mãe, mas para esse postagem não ficar gigante vou pular justamente para o conto que eu mais gostei, que foi O Colar, de Guy de Maupassant, espelhado pelo Um Simples Engano de Maria Valéria Rezende.
"O que teria lhe acontecido se não tivesse perdido aquele colar? Quem sabe? Quem sabe? Como a vida é esquisita, cheia de mudanças! Basta tão pouca coisa para nos pôr a perder ou para nos salvar!"
  Ambos os contos falam sobre um pessoa que pede algo emprestado de uma pessoa bem mais rica, no conto clássico, como o nome já diz, é um colar, na releitura é um carro, acontece que essa pessoa acaba perdendo, de alguma forma o objeto emprestado. O conto clássico me agradou muito mais por ser mais convincente e transmitir melhor a sensação de que tudo poderia ser resolvido se o protagonista estivesse mais bem informado.
  Enfim, esse é um livro que você não encontra para comprar nas livrarias, é um livro feito exclusivamente para o aniversários de 3 anos da TAG, mas os contos clássicos podem ser encontrados em outros lugares também.
  É complicado falar sobre livro de contos, né minha gente... espero ter transmitido um pouco sobre alguns dos contos, hehe.


2 comentários:

  1. Oi Rudi! Fiquei super interessada nesse. Apesar de não ler tanto, eu gosto de contos. E essa proposta é legal d+.

    Clarice Lispector e Eliane Brum são autoras que incomodam mesmo - entendo - mas são do tipo que escrevem bem demais.

    Abs

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    Respostas
    1. Ele é realmente muito interessante, acho que você iria gostar

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