domingo, 1 de fevereiro de 2026

[Opinião] Criança 44 - Tom Rob Smith #566

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"Porque é fácil você ter certeza de que jamais vai roubar, estuprar ou matar, mas ninguém podia ter certeza de não ser acusado de agitação antissoviética, atividades contrarrevolucionárias e espionagem, porque ninguém, inclusive Liev, jamais saberia direito em que consistiam tais crimes."

  Há muitos anos venho ensaiando ler alguma coisa deste autor, mas o que estava no meu radar era um outro livro chamado A Fazenda. Entretanto, já faz algum tempo, passei a acompanhar o canal do Rodrigão1002 no youtube, e ele meio que encabeça uma seita em volta da trilogia que se inicia com este livro.... muito tempo depois, sobrevivendo a várias ameaças de expulsão dos grupos e ser chamado de herege, resolvi ler, enfim, o bendito livro (eu e mais uma galera, diga-se de passagem).
  Aqui conhecemos Liev, um agente soviético especializado em torturar e executar os inimigos do sistema... o bom e velho comunismo em sua verdadeira face,,, até que um dia é encontrada uma criança morta na cidade... Liev já tem trabalho, mas seus superiores o tiram do caso que está acompanhando para dar uma olhada nesse... em especial para contar à família sobre a morte da criança, que o governo considerou um infeliz acidente com o trem. Mas os pais estão convencidos de que se trata de um assassinato. Liev, num primeiro momento, insiste com os pais da vítima para convencê-los do engano, mas logo, todas as convicções do nosso protagonista começarão a ruir.
  Como na URSS ninguém é totalmente confiável, Liev passa por uma prova de sua fidelidade, ou é nisso que acredita, a princípio, quando sua esposa, Raissa, é acusada de ser uma espiã. Este é o verdadeiro estopim da mudança de convicções de Liev. Antes um leal agente do sistema, disposto a torturar e matar quem quer que lhe dissessem se tratar de um inimigo do regime, sempre ignorando os nomes de suas vítimas, já que isso os diminuía a algo inferior a humanos, tornando assim mais fácil a realização de suas funções. Agora Liev duvida de quase tudo, percebe a podridão do sistema ao qual dedicou a vida e passa a buscar por justiça verdadeira e descobrir quem vem matando crianças pela região, crimes estes que o governo nega existirem, já que na sociedade perfeita da URSS não acontecem crimes... e quando acontecem os esforços devem ser para abafar, e não solucionar.
  O livro é muito bem escrito, de forma simples e direta, mas sem deixar de lado certo rebusque na construção do texto, o autor constrói bem personagens e cenários e descreve emoções como poucos são capazes. A trama em si é muito bem elaborada, mas peca um pouco em sua resolução... o livro tem um prefácio que, a princípio, nada tem a ver com a história, servindo apenas para demonstrar a miséria que um povo se encontra. Mas este prefácio retorna para um momento de virada na história... e é ali que se encontra, a meu ver, o principal problema do livro.

Isso dito, abaixo trarei alguns spoilers, então só leia se realmente não se importar com revelações importantes ou se já tiver lido o livro. (Selecione para ler)

  No prólogo vemos dois irmãos tentando pegar um gato para que a família tenha algo para comer, mas ao se separarem um deles é atacado e acreditamos que foi levado pra servir de alimento.
  Liev aparece como alguém muito preocupado e realmente apaixonado pelos pais, o que até contrasta um pouco com sua personalidade impiedosa, ao mesmo tempo que faz sentido, uma vez que ele precisa ter algo para se apoiar (além da esposa que é outro caso complicado, mas neste ponto não vou tocar). Fato é que depois descobrimos que Liev, na verdade, é Pavel.... o menino desaparecido no prólogo do livro... ele realmente foi sequestrado para servir de alimento para o filho do casal que o atacou, mas ao chegar em casa eles encontram o filho morto e desistem de matar Pavel/Liev e ao invés disso usam o corpo do filho como alimento, inclusive para o garoto que estavam planejando cozinhar.... e ele cresce sabendo disso, lembrando disso e convivendo muito bem com isso, obrigado..... sério????? O cara desenvolve um amor (ou síndrome de Estocolmo) tão grande justo pelas pessoas que o tiraram de sua família e pretendiam assassiná-lo? Tudo bem que depois eles o adotaram como filho, mas né?

  Apesar disso é um livro frenético, que representa muito bem como era a vida de pessoas comuns (e outras nem tão comuns) dentro da ilusória ideia de igualdade na URSS, um mistério tenso, com personagens cativantes, que em vários momentos nos envolvem tanto que passamos até a esquecer das atrocidades cometidas. Deixando o leitor empolgado e ansioso pelas continuações, que pretendo encaixar logo.



Filho de mãe sueca e pai Inglês, Smith foi criado em Londres, onde vive hoje. Após graduar-se na Universidade de Cambridge em 2001, ele completou seus estudos na Itália, estudando redação criativa por um ano. Após esses estudos, trabalhou como roteirista. Sua primeira novela, "Criança 44", sobre uma série de assassinatos de crianças na Rússia stalinista, apareceu no início de 2008 e foi traduzido para 17 línguas. Foi premiado em 2008 Ian Fleming Steel Dagger Melhor Thriller do ano pela Associação Crime Writer's. O seguimento de crianças 44, "O Discurso Secreto" foi publicado em abril de 2009.

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