domingo, 7 de setembro de 2014

[Opinião] O Oceano no fim do Caminho - Neil Gaiman


Editora: Intrínseca

N° de Páginas: 202

Citação:

As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo."

Sinopse:
  Sussex, Inglaterra. Um homem de meia-idade volta à casa onde passou a infância para um funeral. Embora a construção não seja mais a mesma, ele é atraído para a fazenda no fim da estrada, onde, aos sete anos, conheceu uma garota extraordinária, Lettie Hempstock, que morava com a mãe e a avó. Ele não pensava em  Lettie há décadas, mas mesmo assim, ao se sentar à beira do lago (o mesmo a que ela se referia como um oceano) nos fundos da velha casa de fazenda, o passado esquecido volta de repente. E é um passado estranho demais, assustador demais, perigoso demais para ter acontecido de verdade, especialmente com um menino.
  Quarenta anos antes, um homem cometeu suicídio dentro de um carro roubado no fim da estrada que dava na fazenda. Sua morte foi o estopim, com consequências inimagináveis. A escuridão foi despertada, algo estranho e incompreensível para uma criança. E Lettie - com sua magia, amizade e sabedoria digna de alguém com muito mais de onze anos - prometeu protegê-lo, não importava o que acontecesse.
  
Opinião:
  E não é que o flerte virou casamento?! Tinha muito medo de ler esse livro e me decepcionar, considerando que absolutamente todo mundo que vi falando sobre ele não atribuiu adjetivo inferior a "maravilhoso" à ele... esperei a poeira baixar a apoteose do livro ser desfeita e finalmente li.
  Não é o meu primeiro contato com o autor, eu li os dois Coisas Frágeis a um tempo, e devo dizer que ele me conquistou mais com a história por trás de cada conto do que com o conto em sí, e essas explicações me foram suficientes para perceber que tem muito de auto-biográfico nesse pequeno livro, que apesar de pequeno é profundo como um oceano (tá, parei).
  Como a sinopse diz, o livro começa com o personagem principal (o qual, se você alguma vez já ouviu falar sobre esse livro, você sabe, não possui nome) indo para a sua cidade natal para um velório, em momento algum é falado a palavra "velório" ou mesmo "enterro" mas podemos facilmente deduzir isso pelas roupas que o personagem afirma estar usando e por alguns sentimentos que ele deixa transparecer, na minha opinião, o melhor do livro é de longe, o fato de o autor deixar tudo para interpretação, ele não entrega as coisas mastigadas nem subestima o leitor. No final do livro, no começo dos agradecimentos ele fala: "Este livro é o que você acabou de ler. Fim. Agora estamos nos agradecimentos. Isto aqui não faz parte do livro, na verdade. Você não precisa ler. Praticamente só tem nomes." (só faltou uma carinha com a língua pra fora no final desse parágrafo) e durante o livro eu sentia como se ele dissesse: "Aí está, esse é o meu livro, escrito da forma que eu quis, te desafio a entender e também a extrair o melhor que puder dele.".
  Certo momento, nosso protagonista resolve visitar sua antiga casa, que não existe mais, e depois do lugar onde essa casa ficava, no fim do caminho, ficava a fazenda das Hempstock, que é onde ele vai parar, senta-se em um banco perto do lago e começa a se lembrar do passado, um passado de cerca de 40 anos antes... mas como diz no trecho que grifei lá em cima: "As memórias da infância as vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois." E a história começa a se desenrolar, de forma bastante fantasiosa, se querem minha opinião sobre a história fantástica vão ter que me perdoar, eu vou me ater mais ao que percebi estar por trás disso tudo...
  Depois do suicídio do Minerador de Opalas é que a fantasia realmente começa, com isso me pareceu que o choque de ver uma pessoa morta pela primeira vez, por confrontar a morte de forma tangível e perceber que é algo que espera a todos nós no fim do caminho (tá, vou parar com os trocadilhos infames com o título do livro) ele se refugia criando um mundo para ele, as trevas liberadas pela morte do homem são uma ótima demonstração do medo da morte nascido em uma pequena criança que nunca teve que lidar com nada do tipo (o cara que morreu morava na mesma casa que ele), e Lettie era outra criança (estamos falando da década de 60, onde meninas de onze anos não tinham filhos de dois) e vendo que o garoto se refugiava em seu mundo imaginário se introduziu nele e o ajudou a criá-lo, por mais que durante a história várias lembranças sejam convictas de que tudo aquilo aconteceu daquela forma, pode muito bem ter sido a forma que ele mascarou para si mesmo, para deixar as coisas mais interessantes, por assim dizer. Isso me tocou bastante, eu fui uma criança que criou diversos "mundos paralelos" para fugir de uma realidade a qual eu não gostava.
  O fato de ele retratar a governanta como um monstro que pretendia destruir sua família é o mais simples de interpretar, ele viu o pai "se atracando" com ela e soube que aquilo destruiria sua família, ele se fecha tanto no seu mundo imaginário, sua rota de escape, que anos depois, ao lembrar da infância, aquele mundo era a verdade, ele ainda se defende falando que nunca lembramos das coisas da forma que elas realmente aconteceram.
  Gaiman descreve o universo infantil com maestria, mostrando, além da imaginação como escapismo, a inocência presente em todos nós nessa idade (que de uns tempos pra cá vem se perdendo cada vez mais cedo, o que é uma pena). O fato de pequenos gestos por parte dos adultos poderem tocar fundo, de forma positiva ou não, dentro das crianças. Como elas ficam alegres quando têm sua opinião levada em consideração. Como a inocência faz ver perigo onde na verdade não existe, e achar seguro algo de que deveriam ter medo.
  Resumir o livro em uma palavra é fácil: Nostálgico, explicar a magnitude dessa palavra, praticamente impossível...


  O meu exemplar possui alguns erros de digitação, nada que seja impossível de contornar observando o contexto, e se tratando de um primeira impressão do livro, esses pequenos erros são aceitáveis.

20 comentários:

  1. Oie, tudo bom?
    Os livros desse autor me parecem ter um fundo bastante poético. Tenho vontade de ler algumas obras dele, mas não surgiu a oportunidade ainda. Acho que é sempre bom abaixar as expectativas sobre um livro tão famoso para que a leitura flua melhor..
    Beijos!
    http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

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    1. Eu recomendo, como já disse já os dois Coisas Frágeis, e neles dá pra ver que ele tem talento e escreve coisas incríveis, e também que cria algumas beeeeem desagradáveis, nada que eu li dele foi mediano, ou foi incrível ou revoltante...

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  2. Oie,
    erros de digitação infelizmente são normais quando não tem uma dupla ou tripla validação do texto, mas senão atrapalha não vejo grandes problemas.
    Não tenho muita curiosidade com este livro, parece ser bem parado.

    bjos

    http://blog.vanessasueroz.com.br

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    1. Ele realmente não tem muita ação, mas tem uma carga psicológica bem grande, ele finca as garras no cérebro e não deixa sair, talvez deva dar uma chance, me parece que ele foi escrito com o objetivo de despertar em nós a criança que já fomos, e, pelo menos em mim, fez isso de forma primorosa

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  3. Rudi, essa foi uma resenha de livro que me causou uma dorzinha profunda! Há tempos penso em visitar o lugar onde eu cresci, estou numa nostalgia apática num período muito ignorante da vida. Desde pequeno também busco várias coisas para me refugiar do mundo, e os livros me deram esse refúgio, mas me perco nas bagunças sociais que tanto me faço de extrovertido. Caramba, esse Neil parece ser demais. Mais um livro pra minha lista de comprar.. e de próximos a serem lidos. Claro.

    http://gabryelfellipeealgo.blogspot.com.br/

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    1. Eu nunca tive saudade do lugar onde eu nasci, não precisamente... passo com frequência pela casa onde morei até os 5 anos e a única coisa que eu penso é: "Meu Deus, que velho que estou, a casa da minha infância está prestes a cair!"
      Não fui muito de ler quando criança, meu refúgio eram as árvores, animais e miniaturas de dinossauros, e claro, meus mundos imaginários...
      Neil Gaiman é 8 ou 80, muito bom ou muito ruim, é minha quarta experiência com ele, primeiro li uma HQ chamada Os Livros da Magia, que achei totalmente desnecessária, depois li os dois Coisas Frágeis e gostei muito de alguns contos e detestei outros, mas o interessante era que ele falava de onde e porquê tinha surgido cada conto, e o modo de ele contar isso me agradou muito, e esse livro... bem, você já sabe o que eu achei...

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  4. Que bom que você gostou do livro! Concordo com você quando diz que os atos dos adultos podem tocar fundo,nas crianças, bem ou mal... E qual criança, em sua inocência, já não criou seus "mundos paralelos" pra fugir da realidade?
    Como sempre, adorei sua opinião!!
    Grande Abraço!!

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    1. Obrigado Gi,
      Eu transformei alguns dos meus mundos em gibis, alguns desses gibis você já viu, mas muitos deles não saíram da minha cabeça... fui egoísta demais para compartilhá-los, mesmo que com apenas um monte de papéis

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  5. Oi!
    Adorei a sua resenha, tenho muita vontade de ler o livro pra poder conhecer a narrativa do autor. Fico feliz que tenho gostado, espero ser tão tocado quanto voce foi durante a leitura.
    Um abraço.
    Guilherme - http://leituraforadeserie.blogspot.com.br/

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    1. A narrativa do autor, pra mim, não é lá grande coisa, não que seja ruim ou comum, ela tem suas particularidades que não consigo explicar, mas não me parece nada muito elaborado, parece algo que ele faz sem esforço, como uma pessoa normal faria...

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  6. Oiii, já ouvi falando um pouco desse livro, mas não imaginava bem o que era. Achei bem interessante e sim, nós lembramos de uma forma diferente do que já aconteceu. Gostei da forma que vc fez a resenha. Parabéns. Abraços
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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    1. Com certeza, é bem mais fácil aceitar, e concordar, com isso do que com o Zafón quando ele diz: "Só lembramos do que nunca aconteceu" em Marina

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  7. otima resenha, ese livro é perfeito. http://abundanceofpaper.blogspot.com/

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  8. Oi Rudi! Eu tenho esse livro há um tempão, mas ainda não tive coragem de ler. Tb li Coisas Frágeis, mas me decepcionei muito.... Acho que esperava outra coisa. Agora tô traumatizada de Neil Gaiman, mas louca pra ler outra coisa dele e entender pq ele é tão cultuado. Depois dessa resenha talvez eu tome coragem e leia Oceano!

    http://maisumapaginalivros.blogspot.com.br/
    Mais Uma Página

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    1. Também não morri de amores por Coisas Frágeis, mas não cheguei a ficar traumatizado (James Dashner está quase me traumatizando)
      Ainda não vi ninguém que tenha lido O Oceano e não tenha gostado

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  9. Olá, adorei sua resenha!
    Me convenceu a procurar pelo livro também, fiquei bem interessada!
    Adorei também a citação no início do post.
    Beijos, Lerissa :D
    lerissakunzler.blogspot.com.br

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    1. Obrigado Lery,
      Acho que você vai gostar bastante ;)

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  10. Ooonw, doida para ler esse livro e com essa resenha lida deu mais vontadee *-*

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    1. Que bom Clara ^^
      espero que tenha a oportunidade de ler e aproveite bastante ;)

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