sexta-feira, 19 de setembro de 2014

[Marca Texto] Infâmia - Ana Maria Machado

  Estava eu no serviço quando uma colega me abordou com a seguinte pergunta: "Você já leu Infâmia? Da Ana Machado alguma coisa?" disse que nunca tinha ouvido falar e ela disse que precisava fazer um trabalho sobre o livro mas tinha medo de a leitura ser muito difícil e pediu pra mim ler e falar se era fácil ou não, já disse que não é a leitura mais fácil do mundo, mas estou adorando o livro, e resolvi compartilhar com vocês um trecho que simplesmente adorei do livro.

"Em muitas histórias bíblicas eu me intrometi, desde o dia em que ganhei do meu padrinho aquele livro. E em muitas outras, de outros livros pela vida afora, à medida que fui crescendo e ampliando minhas oportunidades, conhecendo mais enredos. Invisível, silencioso, sem que nenhum deles desconfiasse da minha presença, eu acompanhava os personagens - uns bem mais do que outros, é verdade. José foi um dos meus primeiros favoritos. Encolhido num canto da cela, ouvi seus companheiros lhe contarem os sonhos que haviam agitado aquela noite. Admirado, escutei as palavras com que decifrou os relatos. Atento, fui aprendendo que todo relato tem interpretações. Mais de uma. Nenhuma é a única correta. Mas muitas são apenas falsas, mentirosas. Produto de fracas mentes. Desonestas. Servem ao mal. Podem até ser frutos de intelectos capazes, que escolhem se aproveitar apenas de alguns fragmentos dessas capacidades e bloquear certos cuidados minuciosos que o bem exige - facilmente contornáveis pelos que optam por ignorar tais escrúpulos. Decidem considerar qualquer rigor zeloso como simples pedregulhos no caminho, mero cascalho moral, reles areia descartável. Há quem prefira agir assim: velar a luz da consciência, ignorar minúcias dispersivas e elaborar raciocínios em mais sombrios territórios mentais, de modo a chegar logo a algum julgamento conclusivo."
   O que falar sobre esse trecho? Eu sempre me senti presente nas histórias que leio como um "wallflower" observando a vida passar. Mas intruso? Nunca me considerei assim, mas agora vejo que não há forma melhor de definir do que essa. Que direito temos de "bisbilhotar" a vida dos personagens? depois ele desenvolve o pensamento e começa a falar de interpretação, e mostra quão importante é ter cuidado, saber interpretar, e principalmente não ter preguiça, analisar com cuidado tudo que se esconde nas entrelinhas e não considerar apenas o que já está mastigado, não devemos ter preguiça de pensar...

2 comentários:

  1. Leitor com preguiça de pensar? Horrível!
    Como eu sempre digo: adoro cuidar da vida dos outros, sim, da vida dos personagens dos livros que leio tão desesperadamente! Não ligo de ser intruso, sou o Sherlock Holmes de todos os livros, buscando com todas as informações pensar na solução e sempre tentando descobrir o final antes que ele chegue, mas sempre usando apenas os pensamentos, nada em busca de spoiler. RSRs

    Que sejamos sempre um filtro, não uma esponja que absorve tudo.

    http://gabryelfellipeealgo.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Criar teorias sobre o final dos livros, quem sempre? o/
      Adoro essa citação de AVDSI :3

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