quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

[Opinião] Após o Anoitecer - Haruki Murakami #218

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Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 204

Quote:

Será que as lembranças não seriam o combustível de que os homens precisam para viver? Se essas lembranças são ou não realmente importantes para a manutenção da vida, não vem ao caso. Elas podem ser apenas um combustível. Seja uma propaganda de jornal, um livro filosófico, uma foto pornográfica ou um maço de notas de dez mil ienes, tudo não passa de papel na hora de queimar, não é mesmo? O fogo não queima tudo questionando 'Nossa! Isso é Kant' ou 'Isto é a edição vespertina do Yominuri' ou 'Puxa! Que peitos!', concorda? Para o fogo, tudo não passa de papel. É a mesma coisa com a memória. As lembranças importantes, as mais ou menos importantes, ou até as que não têm importância nenhuma, tudo, indiscriminadamente, é apenas matéria de combustão."

Sinopse:
  Mari Asai é uma garota solitária que abandona a casa dos pais para enfrentar a noite nas ruas de Tóquio. Sua irmã, Eri, modelo de revistas femininas e jovem de sucesso, vive uma situação diferente: dois meses antes, deitou-se para dormir e nunca mais acordou. Enquanto jaz imóvel em sua cama, estranhos eventos acontecem.
  Com maestria, Murakani mescla a jornada das irmãs às de outros personagens inesquecíveis: Takahashi é um músico jovem que procura sentido para a vida; Shirakawa, empregado numa empresa de tecnologia, vara as noites trabalhando e esconde uma segunda personalidade, brutal; Kaoru, gerente de um motel, tenta ajudar uma prostituta que foi espancada e, no processo, acaba se envolvendo com a máfia chinesa.
  Enquanto os ponteiros do relógio avançam em tempo real madrugada adentro, as diferentes histórias narradas por Murakami se entrelaçam, se dividem e se fundem, num misterioso e belo romance sobre as complexas relações de amor.

Opinião:
  Depois de me decepcionar com Norwegian Wood e ficar insatisfeito com Ouça a Canção do Vento e também com Pinball 1973, foi bom pegar um livro que me lembrasse porque gosto do autor.
  O autor narra seu livro nos transformando em um pequeno ponto flutuante que o segue enquanto ele nos mostra o que acontece a nossa volta, apresentando os personagens e as protagonistas: as irmãs Asai.
  Mari saiu de casa para passar a noite lendo em uma lanchonete, e sua irmã está dormindo, a muito tempo.
  Um rapaz, Shirakawa, entra na lanchonete onde está Mari e puxa conversa com ela, dizendo que a conhece, mas na verdade quer falar sobre a irmã, a bela e popular irmã, Eri, a conversa se arrasta um pouco e depois de algum tempo do rapaz ter ido embora uma desconhecida entra no lugar e vai de encontro a Mari pedindo ajuda. E chega de revelar o enredo do livro.
  A Narrativa em primeira pessoa do plural (acho que posso classificá-la assim) é feita de forma magistral, é tudo muito bem explicado e nos sentimos verdadeiramente assistindo os acontecimentos, a descrição física dos personagens e a aparência dos lugares são gravados na mente do leitor de forma absurda, consigo visualizar os cenários da história de forma assombrosamente vívida.
  A história se passa toda em uma noite, e mostra que a vida continua, em algum lugar sempre haverá uma aventura se desenrolando enquanto você dorme. A forma como o autor cria vários núcleos e subtramas é muito interessante, e como ele consegue conectar todos eles é genial.
  Como praticamente tudo que ele escreveu o livro te dá aquela sensação de que tem algo mais na história do que está sendo narrado, de que nem tudo é o que parece, que algumas coisas são simbólicas, tanto para a história como para a vida real, mesmo que sejam fatos concretos na narrativa.
  Um dos principais pontos de reflexão é sobre o sono inacabável de Eri, é até comentado na história do desejo de se retirar do mundo, de desistir da vida, e faz sentido, mas acho que também pode ser uma metáfora para as pessoas com preocupações vãs, que focam em coisas que não tem futuro, ou que não dão importância ao que realmente tem importância, e levam a vida de modo sonolento, sem produzir nada, sem aproveitar nada.
  O final do livro, escrito de forma linda, de encher os olhos, nos deixa pensando também se o sono não representa um esgotamento emocional onde ela precisa de ajuda, onde apenas com alguém para carregar o fardo seja possível se reerguer.
  É uma história sobre amizade, amor familiar e pelo próximo, que mostra que devemos lançar mão de toda habilidade que podemos ter para auxiliar os que precisam, e sobre manter os olhos abertos, pois nunca conhecemos realmente o outro, mas isso não deve nos impedir de estender a mão.



6 comentários:

  1. Ola,
    Eu ja ouvi falar bastante desse autor, principalmente por que uma amiga minha AMA as obras dele, mas eu nunca li nenhuma obra dele, não por falta de oportunidade, mas por que acabei dando preferência a outros livros.
    Recentemente descobri que uma biblioteca aqui perto de casa tem uma coleção com quase todos os livros do autor, então acho que 2018 finalmente será o ano que lerei as obras do autor.
    Achei bem interessante o fato de ser narrado pela primeira pessoa do plural, e fiquei curioso em como isso funciona no livro, é o que mais me atraiu sobre esse livro na verdade.
    xoxo

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    1. Oi Jason,
      terminei ontem o Romancista Como Vocação, lá ele fala que a narrativa se enquadra como terceira pessoa, mas é uma forma bem diferente de terceira pessoa, porque, como eu disse, o autor conversa bastante, e diretamente, com o leitor, como se estivéssemos presente no lugar que se passa a história e ele só explicasse o que está acontecendo.
      Leia mesmo, acho que vai gostar, eu amo, apesar de ter uns livros dele que não me desceram

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  2. Oi Rudi,

    "E chega de revelar o enredo do livro." hahaha

    Esse parece ser bem interessante, gostei muito do quote que você destacou... O assunto da memória é uma das minhas buscas na literatura.

    Abs.

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    1. Ele é muito bacana mesmo Kelly,
      Os personagem têm longas conversas sobre os mais variados assuntos

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  3. Oi, Rudi! Tudo bem? Esse autor é aclamado e tenho muita curiosidade de conhecer algumas de suas obras. Essa que você resenhou me chamou bastante a atenção, inclusive me identifiquei (com uma certa tristeza) com essa parte da resenha: "...uma metáfora para as pessoas com preocupações vãs, que focam em coisas que não tem futuro, ou que não dão importância ao que realmente tem importância, e levam a vida de modo sonolento, sem produzir nada, sem aproveitar nada." Enfim, quero ler esse livro! :)

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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