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segunda-feira, 19 de março de 2018

[PLMC] A Princesa do Nebrasca - Yiyun Li




  Esse é mais um conto presente no livro Tempo De Boas Preces, essa maravilhosa coletânea onde as histórias podem não ser grande coisa, mas são escritas de forma incrível.







  Aqui temos a conturbada história de Sasha, que vai da China aos Estados Unidos, grávida, para encontrar Boshen, um homem com seus quarenta e tantos anos. Mas essa não é apenas a história de Sasha, tampouco a história de Boshen, mas a história de como Yang interliga a vida desses outros dois personagens.





"Segundo nossos mestres, as verdadeiras artes nunca morrem. As verdadeiras artes têm a ver com o ato de lembrar."









    Boshen é assumidamente homossexual, e foi apaixonado por Yang, vinte anos mais jovem, e por certo tempo atuou como seu protetor.
  Yang é desumanamente belo, um rosto de deixar qualquer candidato a mister preocupado, mas profundamente melancólico e deprimido, por acasos da vida acaba se tornando garoto de programa.
  Sasha é uma moça que esbanja energia e força vital, e ao conhecer Yang exerce certo fascínio no rapaz por não ter se encantado automaticamente por ele, como sempre acontece.

   O conto se segue mostrando o surgimento natural e gradativo de sentimentos complexos entre personagens e como sempre é possível mudar de ideia.
  Outro ponto de reflexão que o conto expõe, e a meu ver é o maior foco da história. É o problema da objetificação de seres humanos, quando uma pessoa tem uma beleza acima da média logo é como se ninguém tivesse qualquer interesse em sua inteligência ou qualquer talento que possua. Tenho dois amigos Misters, misteres... qual é o plural de mister? Enfim, eles (principalmente o que está detendo o título atualmente) me falam o quanto são predados devido a aparência. O conto expõe bem quão profundas podem ser as feridas causadas por esse tipo de atitude.
  Esse, talvez, seja meu conto favorito do livro, mas uma das coisas que mais gosto nas narrativas da Yiyun é que suas histórias ficam conosco por muito tempo, nos incomodando e fazendo pensar em como as situações expostas por ela são relevantes e muitas vezes agimos mal com os que nos cercam sem nem mesmo perceber.


domingo, 16 de abril de 2017

[PLMC] Depois de Uma Vida - Yiyun Li



  Esse conto se encontra na coletânea Tempo De Boas Preces, e devo aproveitar esse momento para dizer que estou me apaixonando por essa autora S2





  Aqui conhecemos a história da família Su. Como eles se apaixonaram, se casaram, as dificuldades que encontraram, já que eram meio que parentes a família não concordava com o relacionamento. E o quanto a vida se tornou difícil ao terem sua primeira filha, Beibei, que nasceu com retardo mental e paralisia cerebral.


"Beibei nasceu apesar dos avisos de todos os parentes, que desde o começo não haviam concordado com um casamento entre primos. Quando veio ao mundo, os médicos disseram que ela provavelmente iria morrer antes de completar dez anos; seria um milagre se chegasse aos vinte. Eles sugeriram que o casal cedesse a recém-nascida para servir de cobaia na faculdade de medicina. Afinal de contas, ela não tinha qualquer outra utilidade. O sr. e a sra. Su sentiram um calafrio ao pensar em seu bebê boiando dentro de um jarro de formol e, depois de mãe e filha serem liberadas, nunca mais levaram Beibei ao hospital."
  Apesar disso, o casal continuava apaixonado e se esforçavam muito para manter Beibei escondida,  um pouco, sejamos sinceros, por vergonha, mas principalmente pelo que poderiam fazer a ela se a encontrassem, lembrando que estamos falando da China, um país com controle de natalidade onde todos os cidadãos devem contribuir com a sociedade de alguma forma.
  Com o passar dos anos, o sr. Su convence sua esposa a ter outro filho, para compensar, de certa forma, a tristeza de ter uma filha doente que impede-os de receber visitas e suga todas as energias do casal.
"No ano do décimo aniversário de Beibei - com certeza um milagre digno de comemoração -, seu marido mencionou pela primeira vez  a possibilidade de terem um segundo filho. Por que?, perguntou ela, e ele falou em um casamento mais saudável, uma família mais completa. Ela não entendeu seu raciocínio, e soube, mesmo quando Jian ainda estava crescendo dentro de sua barriga, que eles teriam um filho normal e que isso de nada iria adiantar para salvá-los do que já fora destruído."
   O conto tem também outras subtramas mas não vou me estender muito nelas. É uma história tocante e incômoda. Sobre amor familiar, a devoção dos pais pelos filhos, quase nunca recíproca, até que ponto vale se sacrificar por supostas causas perdidas, sobre deixar partir. Além disso ele fala sobre valorização do cônjuge, de como ele(a) merece respeito, apesar de qualquer coisa, sobre o amor que une um casal, uma família, amigos... Sobre suportar aqueles que não tem filtro, mas não desperdiçar muitas energias tentando tirar alguém de uma buraco que insiste em continuar cavando. Sobre honestidade em tudo que for fazer, e sobre a eterna luta que é a vida.
  Passei muito tempo sem saber se tinha gostado ou não da história (apenas um adendo, detestei a Sra. Fong), mas a escrita da autora é tão delicada, e ela expõe tudo com "talento, visão e respeito" como diz na capa do livro. Não tem como não se encantar, apesar dos choques de realidade onde você se pega julgando os personagens e sofre um estalo, e se fosse eu no lugar dele?


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

[PLMC] Extra - Yiyun Li




  O referido conto está no livro Tempo De Boas Preces, que, confesso, comprei por causa da capa e do título, nem sabia que se tratava de uma coletânea de contos.





  A história é bem simples, temos Vovó Lin, uma mulher com cerca de 50 anos que não  percebeu a passagem do tempo.
"Vovó Lin se torna esposa, mãe e avó. Não consegue mais lembrar em que ano de sua vida deixaram de chamá-la de Tia Lin para chamá-la de Vovó Lin; as pessoas pensam que as mulheres solteiras envelhecem mais depressa. Mas isso não tem mais importância, porque ela se sente bastante qualificada para aquela sua posição."




   Vovó Lin acaba em um casamento arranjado com um homem bem mais velho, pois ele necessita de cuidados e atenção que seus filhos não estão dispostos a dar, ela acaba se afeiçoando ao homem, mas não tem uma vida de casada com ele, seria mais uma vida de enfermeira. Quando o homem morre os filhos mexem os pauzinhos para que ela não receba a parte da herança que caberia a ela como esposa do falecido, além de colocarem-na no olho da rua.


  desamparada, sem família, trabalho, dinheiro nem oportunidade, ela vai migrando de emprego a emprego, fazendo de tudo e jamais sendo reconhecida.

"'A felicidade do amor é um meteoro que passa chispando; a dor do amor é a escuridão que vem a seguir.' Uma menina passa por Vovó Lin na rua cantando sozinha com uma voz melodiosa. Vovó Lin tenta alcançá-la; mas esta avança depressa demais, e a canção também. Vovó Lin põe a bolsa de lona no chão para recuperar o fôlego, ainda segurando na outra mão a marmiteira de aço inox. Todas as pessoas na rua parecem saber aonde suas pernas as estão levando. Vovó Lin se pergunta quando deixou de ser uma dessas pessoas."
  Como você deve ter percebido é uma história triste, onde também podemos ver o preconceito que domina a sociedade, como pré-julgamos as mulheres de forma geral, mas principalmente quando são de uma idade um pouco avançada, solteiras e pobres. O conto me fez pensar bastante o quanto as pessoas se aproveitam de outras, ah, você está trabalhando nessa loja então vou experimentar todas as calças e depois você dobra tudo de novo porque não vou levar nada... trabalhando no comércio vejo muito disso.
  Até que ponto estamos sendo justos com o próximo, será que não temos maturidade o suficiente para desenvolvermos um pouco de empatia?
  Adorei a escrita da autora, mal posso esperar para ler o restante dos contos.


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