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quarta-feira, 22 de outubro de 2025

[Opinião] A Casa Verde - Mario Vargas Llosa #561

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"Foi assim que a Casa Verde nasceu. A construção levou muitas semanas; as tábuas, as vigas e os tijolos precisavam ser arrastados de outra ponta da cidade, e as mulas alugadas por don Anselmo avançavam com dificuldade pelo areal. O trabalho começava de manhã, quando a chuva seca parava, e terminava quando o vento aumentava. De tarde, à noite, o deserto engolia os alicerces e enterrava as paredes, as iguanas roíam as madeiras, os abutres faziam seus ninhos na insipiente construção, e toda manhã era preciso refazer o que tinha sido começado, corrigir os planos, repor os materiais, num combate surdo que foi galvanizando a cidade. 'Quando o forasteiro vai se dar por vencido?'perguntavam-se os vizinhos."

  Começar avisando que esta postagem está saindo no dia do meu aniversário, e que o link pra minha lista de desejos é este aqui, não que eu esteja insinuando alguma coisa, imagina.

  Então, aqui temos mais um dos livros de estrutura maluca do Llosa, aquela bagunça de narrador, cenário e tempo que a gente adora, mas confesso que aqui eu me perdi com força... acho que é o livro mais confuso do autor... ou eu que não prestei a atenção devida... mas já digo que é um caminho melhor ir pra Cidade e os Cachorros e Conversa no Catedral antes de encarar isso aqui.
  Temos diversos protagonistas aqui... incluindo um sargento (é sargento? talvez general... mas acho que não é apenas cabo, já não tenho certeza) chamado Lituma... é o mesmo Lituma do livro Lituma nos Andes? Não sei... É o mesmo Lituma que era cabo nas histórias de Pedro Camacho em Tia Júlia e o Escrivinhador? Nem ideia... mas é aqui que este nome aparece pela primeira vez (que eu me lembre) uma vez que este é o segundo romance publicado pelo autor. Ele estava de serviço no meio da selva amazônica, entre os companheiros do exército e os indígenas que habitavam a região... até voltar para Piura, uma cidade isolada no deserto peruano, onde um forasteiro chamado Don Anselmo construiu uma misteriosa (pelo menos, num primeiro momento misteriosa) casa verde, que logo se revela um prostíbulo e que, além de dar nome ao livro, é uma construção quase personagem, pois tudo vai orbitar a dita casa.
  Além de Lituma e Don Anselmo, acredito ser seguro dizer que Bonifácia também faz as vezes de protagonista... Bonifácia é uma índia que é tirada da aldeia e colocada num convento (que também é um dos principais cenários do livro... porque tem tudo a ver com a selva e com o prostíbulo...), no convento ela é chamada de Selvática... e como ela foi pra lá contra a vontade, não é muito feliz que a encontramos...
  Como eu disse, é um livro complicado de se acompanhar, quando os personagens de diferentes cenários começam a se encontrar então, aí é só queimando muito neurônio pra entender quem, de onde e quando está falando... já que o tempo aqui é como um espelho quebrado em pedaços bem pequenos, o leitor que vai ter que organizar, dentro da própria cabeça (ou num caderninho a parte) a história em ordem cronológica.
  A Casa Verde muda a vida de todo mundo, desperta interesse em alguns, repulsa em outros e até ambos em uma maioria. É um livro que vai criticar tudo e todos, não vai poupar ninguém, você sai dele sem fé nenhuma na humanidade e achando que ninguém no mundo presta... ou talvez eu não tenha entendido direito o livro... o que é uma grande possibilidade... 
  É difícil definir o que pode ser considerado spoiler nesse livro, porque elementos do final são falados desde o início, tem uma relação... romântica... vamos chamar assim, que é uma das poucas coisas que segue uma ordem quase coerente, mas se falar das personagens nesse, er... relacionamento, pode estragar a experiência de alguém... pelo menos neste aspecto, tem muita coisa pra chamar de experiência nessa leitura.
  É um livro sobre a podridão humana... mas também sobre a humanidade no meio da podridão... ninguém é perfeito, mas sempre tem algo que dá pra salvar em cada um... a esmagadora maioria das pessoas é hipócrita, e poucas pessoas vão assumir isso. É um livro que vai direto para a pilha de releitura, quem sabe numa segunda tentativa eu consiga extrair mais do que ele tem a oferecer.

Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

domingo, 12 de outubro de 2025

[Opinião] A Cidade e os Cachorros - Mario Vargas Llosa #559

Compre pela Amazon 

"Todo mundo fuma no colégio [...] Um maço diário por cabeça. Ou mais. Os oficiais mão fazem ideia do que acontece. Todos ferravam com o Escravo, eu também. Mas depois fiquei amigo dele, o único. Me contava as coisas dele. Tiravam sarro dele porque tinha medo de apanhar. Não era brincadeira, meu tenente, Mijavam em cima dele enquanto dormia, retalhavam o uniforme para que ele ficasse detido, cuspiam na comida dele, obrigavam-no a ir para o fim da fila, mesmo que tivesse chegado em primeiro lugar."

  Este é o primeiro romance escrito pelo Llosa, e sem dúvida uma de suas melhores obras.
  Aqui o autor vai fazer o que adorava: usar um microcosmo pra criticar todo o país, com a sua corrupção e injustiça acontecendo bem debaixo dos olhos das autoridades que é conivente ou totalmente ignorante da realidade.
  Aqui conhecemos um grupo de cadetes do Colégio Militar Leoncio Prado, um colégio que realmente existe e no qual o autor estudou, inclusive, o personagem Alberto, também chamado de Poeta, é inspirado no próprio autor... o quanto corresponde a ele na realidade é difícil saber. Mas Alberto ganha o apelido de poeta por gostar de escrever e fezê-lo melhor do que a maioria dos outros alunos... inclusive escrevendo cartas para que eles pudessem mandar para seus familiares e contos eróticos para substituir as revistas de mesmo teor que foram apreendidas pelos oficiais da escola.
  O livro não segue uma linha cronológica clara, ele é mais um quebra-cabeças temporal que você precisa ir montando conforme faz a leitura. O narrador muda de primeira para terceira pessoa em diversos momentos, e quando em primeira pessoa não é sempre o mesmo personagem que narra, além de passearmos entre o presente, passado e futuro sem nenhum aviso ou demarcação clara, é algo que exige atenção da parte do leitor para que ele consiga se situar em que momento do tempo está o relato que está lendo no momento, sabendo que na próxima linha tudo pode mudar, e o autor consegue fazer isso de forma genial. É uma bagunça, mas é feito com maestria, não um acidente na construção do texto.
  Se Alberto/Poeta é nosso principal protagonista, o garoto conhecido como Jaguar é nosso antagonista e Escravo a força motriz da narrativa. Jaguar é um garoto grande e forte, um dos mais respeitados do Circulo (Circulo é o grupo que os cachorros - como os novatos são chamados - cria para bater de frente com os veteranos que os maltratavam). O ápice da história se passa quando os meninos do Círculo já estão no quarto ano. Alguém invade a diretoria para roubar as respostas da prova que será aplicada e vende aos demais o material furtado. Como Escravo é o menino mais raquítico, bolsista, pois seus pais não tinham dinheiro para mandá-lo para o Colégio e arcar com as mensalidades, além de estar sempre querendo agradar, acaba aceitando levar a culpa pelo roubo das respostas, o que o faz ser detido (é tipo uma prisão militar dentro do Colégio mesmo) e ficar muito tempo sem sair da escola e visitar a família... além de uma moça por quem nutre fortes sentimentos.
  A partir desta e várias outras injustiças, vemos Escravo, cujo verdadeiro nome é Ricardo Arana, definhar aos poucos, mas a história vai muito além disso.
  É um livro violento, duro e potente. Repleto de corrupção e injustiça, que vai escalando até passar de simples insubordinação até alcançar níveis criminais severos.
  Além dos cadetes dentro e fora do Colégio, e nessa mistura de tempos narrativos, também acompanhamos o Tenente Gamboa, um dos responsáveis pelo colégio. Temos um mergulho interessante em seus pensamentos, ambições e frustrações, o que está longe de ser um alívio do caos que é o núcleo dos cadetes.
  Sem dúvida este é um dos melhores livros que o autor escreveu, muito longe de ser um demérito aos demais, mas desde a trama até a forma de estruturar a narrativa colocam essa obra em um lugar de destaque na obra do peruano, considerado por alguns (eu incluso) o maior dentre os autores latino-americanos.

Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.



quarta-feira, 24 de setembro de 2025

[Opinião] Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa #557

Compre pela Amazon 

"Por que insistia em me telefonar de tempos em tempos? Porque eu devia ser uma das poucas coisas estáveis na sua vida agitada, o idiota fiel e apaixonado, sempre lá, esperando ser chamado para fazer a sua ama sentir que ainda era o que sem dúvidas já estava deixando de ser, o que em breve não seria mais: jovem, bonita, amada, cobiçável. Ou, quem sabe, estava precisando de mim. Não era impossível. De repente tinha aparecido alguma brecha na sua vida que o coisinha à-toa podia preencher. E, com sua personalidade gélida, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com seu poder infinito sobre meus sentimentos, não fosse capaz de apagar em dois minutos de conversa. Conhecendo-a, eu não tinha dúvida de que nunca daria o braço a torcer; continuaria insistindo, a cada certo número de meses, de anos."

  Este é um dos livros mais conhecidos do autor, e podemos dizer que é um dos mais simples, também. Isso está longe de significar que é um livro inferior... talvez em sua execução, mas ele figura, sem dúvidas ,entre suas melhores obras.
  Aqui conhecemos nosso protagonista, Ricardo, que ainda criança, no Peru, conhecerá uma menina que mudará sua vida... em um primeiro momento ela se apresentará como uma chilena chamada Lilly, mas este será apenas o primeiro encontro deles. Lilly retornará, em diferentes épocas, em diferentes lugares e com diferentes nomes durante toda a vida de Ricardo, uma certeza é que ela sempre vai embora, outra, ela sempre volta.
  Ricardo é um banana, um cara com uma completa dependência emocional pela menina má (que vamos chamar de Lilly, pra facilitar). Mais do que uma dependência, ele passa boa parte da vida sendo feito de trouxa e adorando isso.
  Não vou entrar em muitos detalhes sobre a trama (mais do que já entrei). O livro trata de dependência emocional, desejo carnal... e como muitas vezes isso é confundido com amor. É uma história crua, onde o erótico tem um peso grande, mas o autor acaba empobrecendo um pouco a obra ao escorregar do erótico para o pornográfico em alguns momentos, mesmo que faça total sentido na história. Até porque essa é uma das principais armas de Lilly em sua cruzada pela vida.
  É uma história que também mostra que existem pessoas incorrigíveis, onde não importam os argumentos e evidências de que o caminho seguido é o errado, a pessoa não quer estar certa, quer seguir o caminho que escolheu, mesmo que isso a leve a ruína... E esta é outra clara mensagem do livro: nada fica impune, mesmo que escape das leis humanas, toda ação tem consequências.
  Alguns segredos são revelados conforme a história se encaminha para o fim, essas revelações são um dos pontos que mais dividem os leitores. Há quem veja como uma quebra de expectativa ou uma justificativa para o comportamento da personagem. Eu vejo diferente, tudo o que é revelado, por mais que possa quebrar um pouco a mística da história, serve para mostrar que Lilly nunca prestou, nem quando criança... mais uma vez: existem pessoas más no mundo, incorrigíveis.
  O livro passeia também, mesmo que muito pouco, numa questão de militância política... não que seja um livro militante, longe disso, mas a forma que Lilly encontra para sair do Peru, ainda na juventude, foi se aliar aos comunistas, indo para a guerrilha em Cuba pra se tornar uma revolucionária... Ricardo também tem essas ilusões em um primeiro momento, até acordar pra vida e virar gente (mesmo que amadureça bem pouco). Este é um ponto interessante de se prestar atenção quando você conhece um pouco sobre a história do autor, que foi um ferrenho defensor do socialismo e da revolução cubana, um grande fã de Fidel Castro... até ver como essa ideologia funciona na prática, e se tornou uma das maiores vozes contra regimes totalitários da América Latina.
  Um livro fenomenal, incômodo e desagradável em diversos momentos, mas sem dúvida conduzido com maestria por um autor inegavelmente habilidoso, que consegue passar ensinamentos para a vida através do mau exemplo, não só da figura inegavelmente má, mas também da que é retratada como boa (inclusive adorei o contraponto de Lilly ser chamada de menina má enquanto ela se referia a Ricardo como bom menino), uma vez que a apatia e o foco de sua vida em um local totalmente equivocado não faz dele um exemplo a ser seguido.


Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

domingo, 14 de setembro de 2025

[Opinião] Dedico a Você Meu Silêncio - Mario Vargas Llosa #556

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"Ele era um gênio, claro [...] Mas, ao mesmo tempo, também era arrogante, vaidoso, uma pessoa muito difícil. Um neurótico como nunca tinha visto antes. Às vezes se recusava a tocar com o resto do grupo, queria números sozinhos. Na banda todos o detestavam e o chamavam de 'o único' porque nunca conversava com ninguém, a impressão que tinham era que sempre os olhava de cima para baixo. Agora, sem a menor dúvida, tocava maravilhosamente. Mas se eu não o mandasse embora perderia o resto da banda. Só no último dia, quando veio se despedir, achei-o um pouco triste. 'Dedico a você meu silêncio', ele me disse, e saiu correndo. Não sei o que quis dizer com isto: 'Dedico a você meu silêncio'. Dá pra entender?"

  O último livro de Vargas Llosa, lançado dois anos antes de sua morte, mas já avisando que seria seu último romance, é um livro... queria dizer cômico, mas não chega a tanto... mesmo sendo uma espécie de sátira.
  Mas não daquelas sátiras que te fazem rir, é mais uma ironia... Nosso protagonista, Toño Azpilcueta (não consigo decorar a grafia desse sobrenome por nada) é um crítico literário medíocre, pra dizer o mínimo, a'te tem certo respeito, mas só escreve artigos pra umas revistas menos conhecidas. Seu casamento é um fracasso, e ele não tem lá muita perspectiva de vida. Ele é convidado para assistir a apresentação de um violinista que, logo de cara, o arrebata... Toño tem certeza de que é uma dos músicos mais talentosos que já conheceu e que ele terá uma carreira brilhante... o que não acontece.
  Poucos dias depois, Toño descobre que Lalo faleceu na miséria... Toño então decide escrever a sua biografia, entrevistando pessoas que o conheciam e os fãs que, acredita ele, existem. Uma das primeiras pessoas a ser entrevistada, e que se tornará uma personagem central no livro, é Cecília Barraza, a contra-parta ficcional de uma cantora peruana que realmente existe, ainda viva, inclusive, com seus 72 anos. O trecho que coloquei no início da postagem é dela, o que já ajuda a explicar um pouco sobre a personagem.
  Toño então resolve escrever não só uma biografia, mas uma espécie de ode à música crioula (ou música tradicional peruana).
  O livro é daquela leva do autor de capítulos alternados, em alguns acompanhamos a vida de Toño, suas pesquisas para o livro e tudo mais... nos outros capítulos acompanhamos o livro em si... que confesso ser chaaaaaaaaato... até porque as partes mais importantes serão lembradas nos capítulos onde a narrativa "principal" se desenrola. 
  Toño é um sonhador, o típico ingênuo que acha que pode salvar o mundo, na cabeça dele, a música crioula é a chave para pacificar o Peru, ele acha que todos vão se sentar em uma grande roda e, ao ouvir a mesma música, todas as diferenças e divergências serão esquecidas magicamente e todos concordarão com tudo e o mundo será cor-de-rosa cheio de pôneis saltitantes...
  O livro, como já disse, traz uma ironia meio melancólica... dá uma sensação estranha de choque de realidade, de utopia risível. Toño degringola conforme a história avança, cada vez mais desconectado da realidade e mais inconveniente para quem convive com ele. É um personagem irritante em vários momentos, não é má pessoa, mas é iludido e irredutível em suas convicções abobalhadas...
  É um bom livro, cheio de simbolismo, divertido em alguns momentos, irritante em outros. Diria que o autor encerrou bem sua carreira.


Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

domingo, 7 de setembro de 2025

[Opinião] Tia Julia e o Escrevinhador - Mario Vargas Llosa #554

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"Saiu meio sufocado do estrado dos noivos e, entre flashes de fotógrafos, trambolhões, cumprimentos, conseguiu chegar ao jardim. Ali a concentração humana era menor e podia-se respirar. Tomou um cálice e viu-se cercado por uma roda de médicos amigos, por intermináveis piadas que tinham por tema a viagem de sua mulher: Mercedes não ia voltar, ia ficar com algum francês, no alto da testa dele já estavam começando a brotar uns chifrinhos.''
  A ideia era deixar para trás os livros que li antes de retornar com o blog e falar só sobre os que li a partir da retomada, mas como Vargas Llosa é minha obsessão desse ano, assim como Julian Barnes foi minha obsessão em 2024, resolvi falar dos livros que li dele esse ano, já que me acho apto a escrever sobre eles confiando na minha boa memória da leitura.
  Tia Julia e o Escrevinhador foi o quarto livro do autor que li na minha vida, o primeiro desse ano, e se tornou uma leitura especial não só por ele em si, mas no dia seguinte ao que concluí essa leitura, veio a notícia do falecimento do autor, o último do boom latino-americano, segundo alguns, o maior deles... já fiz um vídeo comentando brevemente sobre o autor na ocasião de sua morte, então de aqui pra frente vou me ater a este livro em específico.
  Tia Julia e o Escrevinhador é um livro de alto cunho autobiográfico, uma vez que o próprio autor é o protagonista e vai contar, com retoques romanceados, seu relacionamento com quem veio a ser sua primeira esposa. Julia era uma viúva de 32 anos, colombiana, irmã da esposa do tio de Vargas Llosa que vai até o Peru passar um tempo com a irmã enquanto busca um novo casamento.
"Tio Lucho advertia tia Julia que se se mostrasse exigente demais não encontraria marido peruano. Ela se queixava de que, também aqui, assim como na Bolívia, os moços bons eram pobres, e os ricos, feios, e que quando aparecia um moço bom e rico era sempre casado."
   Ao conviver com Julia, o então jovem de 18 anos, Vargas Llosa começa a despertar um interesse, que no início não é necessariamente romântico, mas logo evolui para isso. Vargas Llosa já possui pretensões literárias que se acentuam ao conhecer Pedro Camacho, um renomado autor de radionovelas que todos acompanham.
  A estrutura da obra é uma das favoritas do autor, com capítulos intercalados entre a história que dá nome ao livro e as novelas de Pedro Camacho, que funcionam aqui como contos, mas todos sendo interrompidos em seu momento de ápice e deixando a conclusão à cargo do leitor, inclusive com perguntas provocadoras. Essas novelas também são comentadas pelos personagens de fora delas, mas esses comentários não são exatamente sobre as histórias que lemos... Em uma dessas histórias conhecemos um personagem conhecido como cabo Lituma, e o autor tem um livro chamado Lituma nos Andes... se tem alguma relação real além da coincidência do nome, só saberei quando ler este outro livro.
  O livro, apesar dos confrontos com a família que não vê com bons olhos a relação entre o jovem com uma mulher mais velha que é uma tia de consideração, tem um teor bastante cômico, principalmente da metade para o final, quando Pedro Camacho começa a misturar suas histórias e ficar fraco da cabeça enquanto Varguitas (como tia Julia o chama) e a amada superam os obstáculos impostos ao relacionamento deles.
  Outro ponto interessante é que mesmo que toda a família esteja contra o namoro do casal protagonista, eles também têm aliados, a irmã de Julia e seu marido ajudam bastante para que o relacionamento engrene, a filha deles também é uma grande amiga do protagonista/autor... o que é interessante de se reparar quando você conhece mais da vida do autor... Vargas Llosa realmente se casa com a tia de consideração chamada Julia, da qual se separa depois de 8 anos, se não me engano, e se casa com a prima, essa que aparece no livro como amiga dele e que era uma das poucas familiares que aprovava o relacionamento com a mulher mais velha.
  É um livro super divertido, que me fez gostar mais do autor e, aliado a trágica notícia de seu falecimento, foi o responsável pela minha obsessão no autor que está em vigor em 2025.

 
Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

[Opinião] Conversa no Catedral - Mario Vargas Llosa #524

Compre pela Amazon 

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 581

Quote:
"Não querem mudar a política, vão fazer a mesma coisa quando chegarem ao poder."

Opinião:
  Este livro entra com louvor para o hall dos livros mais malucos e difíceis que já li.
  Não porque a história em si seja nonsense ou difícil de entender, isso tudo é bem simples, na realidade. O que torna o livro uma leitura desafiadora é a forma como o autor escolhe contar essa história.
  Aqui conhecemos Zavalita, que também será chamado de Santiago, que vai encontrar Ambrósio, que também tem alguns apelidos, mas isso está longe de ser o que mais deixa a gente perdido durante a leitura... enfim, esses personagens vão se reencontrar, depois de muitos anos sem se ver, e sentados em uma mesa do bar Catedral vão falar sobre o passado.
  Ambrósio foi motorista do pai de Santiago em um passado distante, quando este era um empresário muito mais bem sucedido do que é atualmente.
  Mas enfim, o que teriam, esses dois personagens, para conversar no barzinho por mais de 500 páginas? A conversa deles é para relembrar o passado e a vida de ambos, em especial a do Santiago. Na época sobre a qual eles vão conversar acompanhamos, de forma completamente não linear, vários anos da vida deste protagonista, numa época de confusão política no Peru, onde o povo estava dividido entre extrema direita e extrema esquerda... um lugar bem tranquilo de se viver, não é mesmo? Até porque ninguém se tocava que os extremos eram tão semelhantes que se confundiam entre si, como acontece desde que o mundo é mundo e continuará sendo, já que, bom... é assim que é.
  Quando Santiago é jovem ele resolve seguir a carreira de jornalista, para isso vai para a faculdade entra no partido comunista e renega a fortuna do pai... mas renega daquele jeito né... vira e mexe pede dinheiro pro irmão, inclusive chega a dizer em determinado momento que não precisa de um bom emprego, se precisar de dinheiro os irmãos podem arranjar para ele.
  Mais do que a formação e emburrecimento de Santiago também acompanhamos Ambrósio e seu dia a dia, incluindo os empregos que teve depois que deixou de ser motorista do pai de Santiago, além de vários outros personagens ali do meio empresarial, político e do submundo do crime... basicamente tudo que acontecia com todos que viviam ali na região do bar onde eles estão agora conversando. Bar este que é quase um personagem também. Tudo isso sendo narrado nesta conversa, que ora um fala ora outro, tudo de memória, coisas que presenciaram, eventos dos quais participaram ou, até mesmo, coisas que ouviram falar na época.
  O que torna o livro desafiador na tarefa de acompanhar a narrativa, é que esse passado que vai sendo reconstruído, troca entre os dois narradores, além de avançar e voltar no tempo, ainda com intromissões do que acontece no presente, enquanto eles conversam... tudo isso de uma linha para outra, sem qualquer aviso prévio, então a coisa mais normal do mundo, é você se perder algumas, ou várias vezes, durante a leitura.
  Longe de mim querer desmotivar quem se interessar por este livro, porque além de passear pelos eventos desse período complicado da história política do Chile, algo que realmente aconteceu, aqui também vamos acompanhar a vida desses dois protagonistas, como já disse, com mais ênfase no Santiago, que é meio que um alter ego do próprio Llosa, e uma bela história de investigação, com muitas reviravoltas de explodir a cabeça. 
  Em determinado momento dessa conversa ele irão falar sobre o assassinato de uma cantora de cabaré, assassinato esse que Santiago, como jornalista, vai se embrenhar fundo para investigar, e descobrir muita coisa sobre pessoas próximas a ele. Se só essas descobertas já não tivessem feito sua cabeça (e a de quem está lendo o livro) rodar, Ambrósio vai fornecer, assim como faz em outros assuntos abordados, sua versão da história, revelando acontecimentos que preenchem as lacunas do que Santiago sabe, tornando tudo ainda mais mirabolante e aumentando muito o peso dramático dos fatos.
  Além de tudo isso é ótimo ver Santiago quebrando a cara até virar (ou não) gente.
  Considerado por muitos a obra prima do autor e por ele mesmo o livro que mais deu trabalho para ser escrito, é um dos livros mais interessantes que tive o prazer de ler, a superfície parece ser de concreto, mas depois que você consegue mergulhar você simplesmente não vai conseguir largar. É meu segundo contato com a obra do autor, e logo depois da leitura confesso que achava O Herói Discreto um livro superior, mas depois de refletir bastante acho que prefiro este, o que não diminui o mérito do outro livro, mas acho que a imersão no enredo e a criação dos personagens é mais cativante aqui, sem falar que a forma maluca como o autor escolheu contar essa história.
  É desafiador, sim. Mas vale a pena.

Nascido em uma família de classe média, único filho de Ernesto Vargas Maldonado e Dora Llosa Ureta, seus pais separaram-se após cinco meses de casamento. Com isto o menino não conheceu o pai até os dez anos de idade. Sua primeira infância foi em Cochabamba, na Bolívia, mas no período do governo José Luis Bustamante y Rivero, seu avô obtém um importante cargo político no governo, em Piura, no norte do Peru, e sua mãe retorna ao Peru, para viver naquela cidade.
Em 1946 muda-se para Lima e então conhece seu pai. Os pais reconciliam-se e, durante sua adolescência, a família continuará vivendo ali.
Ao completar 14 anos, ingressa, por vontade paterna, no Colégio Militar Leôncio Prado, em La Perla, como aluno interno, ali permanecendo por dois anos.

 


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

[Opinião] O Herói Discreto - Mario Vargas Llosa #382

Copre pela Amazon 

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 342

Quote:
"Era velho de merda para cá, que exploda de uma vez para lá, tudo isso a menos de um metro de mim, felizes por saber que eu estava agonizando. Sabe de uma coisa, Rigoberto? Eles me salvaram da morte. Sim, eles, juro. Porque quando ouvi essas barbaridades me deu uma vontade incrível de viver. Para não dar esse prazer a eles, para não morrer. E juro que meu corpo reagiu. Foi aí que decidi, ali mesmo na clínica. Se me recuperar, eu me caso com a Arminda. Vou foder com eles antes que eles me fodam. Querem guerra? Pois vão ter. E vão mesmo, meu velho. Já estou até vendo as caras deles."

Opinião:



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