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domingo, 22 de fevereiro de 2026

[Opinião] Como Vivem os Mortos - Will Self #567

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"Não. Não - isso está além das minhas forças. Aconteceu. Fui enterrada viva no caixão devorador de carne do meu próprio corpo."

  Uma coisa que acho que repetirei em todos os comentários sobre algum livro deste autor é: uma das narrativas mais visuais que já li... 
  Aqui conhecemos Lilly Bloom... uma senhora boca suja e rabugenta,não é tão velha, mas desenvolveu um câncer fulminante que a está matando rapidamente. Mas quando já não resta opção uma das filhas a leva para sua casa, para ficar em um lugar, supostamente, mais acolhedor do que o ambiente estéril do hospital... apenas supostamente...
  As filhas de Lilly são dois opostos, uma super certinha e outra da pá virada, viciada e que vive na sarjeta... estranhamente Lilly tem uma devoção pela filha que é um caso perdido enquanto demonstra desprezo pela filha mais bem-sucedida.
  Mas isso é só o início da história... depois que Lilly perde a batalha contra o câncer vamos acompanhá-la no seu pós vida, uma mitologia muito diferente de tudo que já ouvimos falar... ela é recepcionada por um aborígene australiano morto que será seu guia, mesmo que não explique todos os pormenores... inclusive muita coisa não será explicada em momento nenhum do livro. Você só aceita e prossegue.
  Muitos anos se passam depois da morte de Lilly, e acompanhamos seu pós vida enquanto também acompanhamos a vida das suas filhas, quando Lilly as visita...
  É um livro sobre vida e morte de sua forma mais crua... mesmo depois de morta Lilly continua presa a uma rotina maçante e repetitiva, ainda tem uma casa para cuidar e trabalho a fazer, se olharmos bem, não tem muita diferença entre ela e uma viva... a não ser o fato de estar acompanhada sempre de um litopédio, um feto calcificado, fruto de um aborto espontâneo que teve em vida... esse personagem é uma figura, vive cantando sucessos antigos. Bem diferente de um outro filho falecido de Lilly que vai aparecer depois, e ela vai chamá-lo de Rude Boy, um apelido muito propício, diga-se de passagem... ele pode funcionar como um alívio cômico, pra quem achar graça de criança mal educada, que dá dedo até pro vendo, xinga até o sol e abaixa as causas pra mostrar o traseiro até para o papa.
  O mundo dos mortos e dos vivos coexistem sobrepostos, não há uma separação clara e nem é explicada, algumas vezes o mundo dos mortos "vaza" para o dos vivos e os vivos podem vê-los, isso pode causar alguma confusão, mas na maioria das vezes os vivos nem percebem que se trata de um morto. Os mortos tem corpo sutis (para usar as palavras do livro), e isso significa que eles não podem tocar nas coisas... em certa medida,,, já que eles ainda trabalham (o guia aborígene de Lilly, por exemplo, é dono de uma rede de restaurantes, frequentada por vivos e mortos... um negócio que fundou depois da morte) e mesmo que não precisem e nem possam comer, eles fazer refeições que figuem comer... muito mais pelo costume e prazer de comer algo (mesmo sem o prazer de que isso seja real) do que por real necessidade.
  É um livro por vezes cômico, que mostra que uma vida estagnada não é muito diferente da morte, que mesmo com perdas trágicas a vida continua, que quem amamos terão conquistas que não poderemos acompanhar.
  Não é um livro de leitura acelerada e nem com muita ação, é um livro para ser desfrutado lentamente, já que a escrita emula o tédio da morte que Lilly sente, recheado de referências literárias. Um livro para o qual eu tinha grandes expectativas, e não me decepcionou.


É um autor, jornalista, comentarista político e personalidade de televisão inglês. É autor de onze romances, cinco coleções de contos, três novelas e cinco coleções de obras de não-ficção.
Seu romance de 2002, Dorian, an Imitation, foi listado para o Prêmio Men Booker, e seu romance de 2012, Umbrella, foi selecionado. Sua ficção é conhecida por ser satírica, grotesca e fantástica, e é predominantemente ambientada em sua cidade natal, Londres. Seus escritos frequentemente exploram doenças mentais, abuso de drogas e psiquiatria.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

[Opinião] Jornada de Três Dias - Joseph Boyden #564

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"Vou contar aos anciões as coisas muito estranhas que vimos: os aviões que voam bem alto no céu e disparam metralhadoras uns nos outros; os corpos dos mortos em todo canto, de modo que ficamos acostumados a vê-los inchando na chuva; a conversa sobre a ameaça de pequenas bombas que soltam gás venenoso que queima a garganta e os pulmões de um homem de um jeito que ele se asfixia até ter uma morte dolorosa; as saídas sorrateiras como uma raposa à noite, consertando arame e atacando as crateras inimigas; as granadas que vêm assobiando do lugar nenhum em um manhã calma e explodem os braços, a cabeça e as pernas do homem com quem falamos um dia antes. Mas especialmente vou contar aos anciãos como depois de um ataque de artilharia a vida volta ao normal muito depressa, como a mente da pessoa não permite que ela fique pensando muito no horror da morte violenta, porque se permitir isso vai deixá-la louca."

  Fui para este livro completamente cego para este livro, já tinha ouvido alguém elogiar, mas não lembro direito quem e nem qual era o elogio... como bom verme que adora edição padronizada que sou, já estava de olho nesse livro, e acabei adquirindo ele pelos sites de usados da internet... Só depois que ele chegou por aqui que vi que se tratava de um autor canadense... e Canadá foi o último país sorteado para o meu projeto de Volta ao Mundo em 50 Livros... então pensei: Por que não?
  Decidido que este seria meu representante do Canadá nesse meu projetinho, fiz então o vídeo abaixo... Acho que me expresso muito melhor escrevendo do que falando, mas é o que temos pra hoje.


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

[Opinião] A Casa Verde - Mario Vargas Llosa #561

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"Foi assim que a Casa Verde nasceu. A construção levou muitas semanas; as tábuas, as vigas e os tijolos precisavam ser arrastados de outra ponta da cidade, e as mulas alugadas por don Anselmo avançavam com dificuldade pelo areal. O trabalho começava de manhã, quando a chuva seca parava, e terminava quando o vento aumentava. De tarde, à noite, o deserto engolia os alicerces e enterrava as paredes, as iguanas roíam as madeiras, os abutres faziam seus ninhos na insipiente construção, e toda manhã era preciso refazer o que tinha sido começado, corrigir os planos, repor os materiais, num combate surdo que foi galvanizando a cidade. 'Quando o forasteiro vai se dar por vencido?'perguntavam-se os vizinhos."

  Começar avisando que esta postagem está saindo no dia do meu aniversário, e que o link pra minha lista de desejos é este aqui, não que eu esteja insinuando alguma coisa, imagina.

  Então, aqui temos mais um dos livros de estrutura maluca do Llosa, aquela bagunça de narrador, cenário e tempo que a gente adora, mas confesso que aqui eu me perdi com força... acho que é o livro mais confuso do autor... ou eu que não prestei a atenção devida... mas já digo que é um caminho melhor ir pra Cidade e os Cachorros e Conversa no Catedral antes de encarar isso aqui.
  Temos diversos protagonistas aqui... incluindo um sargento (é sargento? talvez general... mas acho que não é apenas cabo, já não tenho certeza) chamado Lituma... é o mesmo Lituma do livro Lituma nos Andes? Não sei... É o mesmo Lituma que era cabo nas histórias de Pedro Camacho em Tia Júlia e o Escrivinhador? Nem ideia... mas é aqui que este nome aparece pela primeira vez (que eu me lembre) uma vez que este é o segundo romance publicado pelo autor. Ele estava de serviço no meio da selva amazônica, entre os companheiros do exército e os indígenas que habitavam a região... até voltar para Piura, uma cidade isolada no deserto peruano, onde um forasteiro chamado Don Anselmo construiu uma misteriosa (pelo menos, num primeiro momento misteriosa) casa verde, que logo se revela um prostíbulo e que, além de dar nome ao livro, é uma construção quase personagem, pois tudo vai orbitar a dita casa.
  Além de Lituma e Don Anselmo, acredito ser seguro dizer que Bonifácia também faz as vezes de protagonista... Bonifácia é uma índia que é tirada da aldeia e colocada num convento (que também é um dos principais cenários do livro... porque tem tudo a ver com a selva e com o prostíbulo...), no convento ela é chamada de Selvática... e como ela foi pra lá contra a vontade, não é muito feliz que a encontramos...
  Como eu disse, é um livro complicado de se acompanhar, quando os personagens de diferentes cenários começam a se encontrar então, aí é só queimando muito neurônio pra entender quem, de onde e quando está falando... já que o tempo aqui é como um espelho quebrado em pedaços bem pequenos, o leitor que vai ter que organizar, dentro da própria cabeça (ou num caderninho a parte) a história em ordem cronológica.
  A Casa Verde muda a vida de todo mundo, desperta interesse em alguns, repulsa em outros e até ambos em uma maioria. É um livro que vai criticar tudo e todos, não vai poupar ninguém, você sai dele sem fé nenhuma na humanidade e achando que ninguém no mundo presta... ou talvez eu não tenha entendido direito o livro... o que é uma grande possibilidade... 
  É difícil definir o que pode ser considerado spoiler nesse livro, porque elementos do final são falados desde o início, tem uma relação... romântica... vamos chamar assim, que é uma das poucas coisas que segue uma ordem quase coerente, mas se falar das personagens nesse, er... relacionamento, pode estragar a experiência de alguém... pelo menos neste aspecto, tem muita coisa pra chamar de experiência nessa leitura.
  É um livro sobre a podridão humana... mas também sobre a humanidade no meio da podridão... ninguém é perfeito, mas sempre tem algo que dá pra salvar em cada um... a esmagadora maioria das pessoas é hipócrita, e poucas pessoas vão assumir isso. É um livro que vai direto para a pilha de releitura, quem sabe numa segunda tentativa eu consiga extrair mais do que ele tem a oferecer.

Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

domingo, 12 de outubro de 2025

[Opinião] A Cidade e os Cachorros - Mario Vargas Llosa #559

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"Todo mundo fuma no colégio [...] Um maço diário por cabeça. Ou mais. Os oficiais mão fazem ideia do que acontece. Todos ferravam com o Escravo, eu também. Mas depois fiquei amigo dele, o único. Me contava as coisas dele. Tiravam sarro dele porque tinha medo de apanhar. Não era brincadeira, meu tenente, Mijavam em cima dele enquanto dormia, retalhavam o uniforme para que ele ficasse detido, cuspiam na comida dele, obrigavam-no a ir para o fim da fila, mesmo que tivesse chegado em primeiro lugar."

  Este é o primeiro romance escrito pelo Llosa, e sem dúvida uma de suas melhores obras.
  Aqui o autor vai fazer o que adorava: usar um microcosmo pra criticar todo o país, com a sua corrupção e injustiça acontecendo bem debaixo dos olhos das autoridades que é conivente ou totalmente ignorante da realidade.
  Aqui conhecemos um grupo de cadetes do Colégio Militar Leoncio Prado, um colégio que realmente existe e no qual o autor estudou, inclusive, o personagem Alberto, também chamado de Poeta, é inspirado no próprio autor... o quanto corresponde a ele na realidade é difícil saber. Mas Alberto ganha o apelido de poeta por gostar de escrever e fezê-lo melhor do que a maioria dos outros alunos... inclusive escrevendo cartas para que eles pudessem mandar para seus familiares e contos eróticos para substituir as revistas de mesmo teor que foram apreendidas pelos oficiais da escola.
  O livro não segue uma linha cronológica clara, ele é mais um quebra-cabeças temporal que você precisa ir montando conforme faz a leitura. O narrador muda de primeira para terceira pessoa em diversos momentos, e quando em primeira pessoa não é sempre o mesmo personagem que narra, além de passearmos entre o presente, passado e futuro sem nenhum aviso ou demarcação clara, é algo que exige atenção da parte do leitor para que ele consiga se situar em que momento do tempo está o relato que está lendo no momento, sabendo que na próxima linha tudo pode mudar, e o autor consegue fazer isso de forma genial. É uma bagunça, mas é feito com maestria, não um acidente na construção do texto.
  Se Alberto/Poeta é nosso principal protagonista, o garoto conhecido como Jaguar é nosso antagonista e Escravo a força motriz da narrativa. Jaguar é um garoto grande e forte, um dos mais respeitados do Circulo (Circulo é o grupo que os cachorros - como os novatos são chamados - cria para bater de frente com os veteranos que os maltratavam). O ápice da história se passa quando os meninos do Círculo já estão no quarto ano. Alguém invade a diretoria para roubar as respostas da prova que será aplicada e vende aos demais o material furtado. Como Escravo é o menino mais raquítico, bolsista, pois seus pais não tinham dinheiro para mandá-lo para o Colégio e arcar com as mensalidades, além de estar sempre querendo agradar, acaba aceitando levar a culpa pelo roubo das respostas, o que o faz ser detido (é tipo uma prisão militar dentro do Colégio mesmo) e ficar muito tempo sem sair da escola e visitar a família... além de uma moça por quem nutre fortes sentimentos.
  A partir desta e várias outras injustiças, vemos Escravo, cujo verdadeiro nome é Ricardo Arana, definhar aos poucos, mas a história vai muito além disso.
  É um livro violento, duro e potente. Repleto de corrupção e injustiça, que vai escalando até passar de simples insubordinação até alcançar níveis criminais severos.
  Além dos cadetes dentro e fora do Colégio, e nessa mistura de tempos narrativos, também acompanhamos o Tenente Gamboa, um dos responsáveis pelo colégio. Temos um mergulho interessante em seus pensamentos, ambições e frustrações, o que está longe de ser um alívio do caos que é o núcleo dos cadetes.
  Sem dúvida este é um dos melhores livros que o autor escreveu, muito longe de ser um demérito aos demais, mas desde a trama até a forma de estruturar a narrativa colocam essa obra em um lugar de destaque na obra do peruano, considerado por alguns (eu incluso) o maior dentre os autores latino-americanos.

Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.



quarta-feira, 24 de setembro de 2025

[Opinião] Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa #557

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"Por que insistia em me telefonar de tempos em tempos? Porque eu devia ser uma das poucas coisas estáveis na sua vida agitada, o idiota fiel e apaixonado, sempre lá, esperando ser chamado para fazer a sua ama sentir que ainda era o que sem dúvidas já estava deixando de ser, o que em breve não seria mais: jovem, bonita, amada, cobiçável. Ou, quem sabe, estava precisando de mim. Não era impossível. De repente tinha aparecido alguma brecha na sua vida que o coisinha à-toa podia preencher. E, com sua personalidade gélida, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com seu poder infinito sobre meus sentimentos, não fosse capaz de apagar em dois minutos de conversa. Conhecendo-a, eu não tinha dúvida de que nunca daria o braço a torcer; continuaria insistindo, a cada certo número de meses, de anos."

  Este é um dos livros mais conhecidos do autor, e podemos dizer que é um dos mais simples, também. Isso está longe de significar que é um livro inferior... talvez em sua execução, mas ele figura, sem dúvidas ,entre suas melhores obras.
  Aqui conhecemos nosso protagonista, Ricardo, que ainda criança, no Peru, conhecerá uma menina que mudará sua vida... em um primeiro momento ela se apresentará como uma chilena chamada Lilly, mas este será apenas o primeiro encontro deles. Lilly retornará, em diferentes épocas, em diferentes lugares e com diferentes nomes durante toda a vida de Ricardo, uma certeza é que ela sempre vai embora, outra, ela sempre volta.
  Ricardo é um banana, um cara com uma completa dependência emocional pela menina má (que vamos chamar de Lilly, pra facilitar). Mais do que uma dependência, ele passa boa parte da vida sendo feito de trouxa e adorando isso.
  Não vou entrar em muitos detalhes sobre a trama (mais do que já entrei). O livro trata de dependência emocional, desejo carnal... e como muitas vezes isso é confundido com amor. É uma história crua, onde o erótico tem um peso grande, mas o autor acaba empobrecendo um pouco a obra ao escorregar do erótico para o pornográfico em alguns momentos, mesmo que faça total sentido na história. Até porque essa é uma das principais armas de Lilly em sua cruzada pela vida.
  É uma história que também mostra que existem pessoas incorrigíveis, onde não importam os argumentos e evidências de que o caminho seguido é o errado, a pessoa não quer estar certa, quer seguir o caminho que escolheu, mesmo que isso a leve a ruína... E esta é outra clara mensagem do livro: nada fica impune, mesmo que escape das leis humanas, toda ação tem consequências.
  Alguns segredos são revelados conforme a história se encaminha para o fim, essas revelações são um dos pontos que mais dividem os leitores. Há quem veja como uma quebra de expectativa ou uma justificativa para o comportamento da personagem. Eu vejo diferente, tudo o que é revelado, por mais que possa quebrar um pouco a mística da história, serve para mostrar que Lilly nunca prestou, nem quando criança... mais uma vez: existem pessoas más no mundo, incorrigíveis.
  O livro passeia também, mesmo que muito pouco, numa questão de militância política... não que seja um livro militante, longe disso, mas a forma que Lilly encontra para sair do Peru, ainda na juventude, foi se aliar aos comunistas, indo para a guerrilha em Cuba pra se tornar uma revolucionária... Ricardo também tem essas ilusões em um primeiro momento, até acordar pra vida e virar gente (mesmo que amadureça bem pouco). Este é um ponto interessante de se prestar atenção quando você conhece um pouco sobre a história do autor, que foi um ferrenho defensor do socialismo e da revolução cubana, um grande fã de Fidel Castro... até ver como essa ideologia funciona na prática, e se tornou uma das maiores vozes contra regimes totalitários da América Latina.
  Um livro fenomenal, incômodo e desagradável em diversos momentos, mas sem dúvida conduzido com maestria por um autor inegavelmente habilidoso, que consegue passar ensinamentos para a vida através do mau exemplo, não só da figura inegavelmente má, mas também da que é retratada como boa (inclusive adorei o contraponto de Lilly ser chamada de menina má enquanto ela se referia a Ricardo como bom menino), uma vez que a apatia e o foco de sua vida em um local totalmente equivocado não faz dele um exemplo a ser seguido.


Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

domingo, 14 de setembro de 2025

[Opinião] Dedico a Você Meu Silêncio - Mario Vargas Llosa #556

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"Ele era um gênio, claro [...] Mas, ao mesmo tempo, também era arrogante, vaidoso, uma pessoa muito difícil. Um neurótico como nunca tinha visto antes. Às vezes se recusava a tocar com o resto do grupo, queria números sozinhos. Na banda todos o detestavam e o chamavam de 'o único' porque nunca conversava com ninguém, a impressão que tinham era que sempre os olhava de cima para baixo. Agora, sem a menor dúvida, tocava maravilhosamente. Mas se eu não o mandasse embora perderia o resto da banda. Só no último dia, quando veio se despedir, achei-o um pouco triste. 'Dedico a você meu silêncio', ele me disse, e saiu correndo. Não sei o que quis dizer com isto: 'Dedico a você meu silêncio'. Dá pra entender?"

  O último livro de Vargas Llosa, lançado dois anos antes de sua morte, mas já avisando que seria seu último romance, é um livro... queria dizer cômico, mas não chega a tanto... mesmo sendo uma espécie de sátira.
  Mas não daquelas sátiras que te fazem rir, é mais uma ironia... Nosso protagonista, Toño Azpilcueta (não consigo decorar a grafia desse sobrenome por nada) é um crítico literário medíocre, pra dizer o mínimo, a'te tem certo respeito, mas só escreve artigos pra umas revistas menos conhecidas. Seu casamento é um fracasso, e ele não tem lá muita perspectiva de vida. Ele é convidado para assistir a apresentação de um violinista que, logo de cara, o arrebata... Toño tem certeza de que é uma dos músicos mais talentosos que já conheceu e que ele terá uma carreira brilhante... o que não acontece.
  Poucos dias depois, Toño descobre que Lalo faleceu na miséria... Toño então decide escrever a sua biografia, entrevistando pessoas que o conheciam e os fãs que, acredita ele, existem. Uma das primeiras pessoas a ser entrevistada, e que se tornará uma personagem central no livro, é Cecília Barraza, a contra-parta ficcional de uma cantora peruana que realmente existe, ainda viva, inclusive, com seus 72 anos. O trecho que coloquei no início da postagem é dela, o que já ajuda a explicar um pouco sobre a personagem.
  Toño então resolve escrever não só uma biografia, mas uma espécie de ode à música crioula (ou música tradicional peruana).
  O livro é daquela leva do autor de capítulos alternados, em alguns acompanhamos a vida de Toño, suas pesquisas para o livro e tudo mais... nos outros capítulos acompanhamos o livro em si... que confesso ser chaaaaaaaaato... até porque as partes mais importantes serão lembradas nos capítulos onde a narrativa "principal" se desenrola. 
  Toño é um sonhador, o típico ingênuo que acha que pode salvar o mundo, na cabeça dele, a música crioula é a chave para pacificar o Peru, ele acha que todos vão se sentar em uma grande roda e, ao ouvir a mesma música, todas as diferenças e divergências serão esquecidas magicamente e todos concordarão com tudo e o mundo será cor-de-rosa cheio de pôneis saltitantes...
  O livro, como já disse, traz uma ironia meio melancólica... dá uma sensação estranha de choque de realidade, de utopia risível. Toño degringola conforme a história avança, cada vez mais desconectado da realidade e mais inconveniente para quem convive com ele. É um personagem irritante em vários momentos, não é má pessoa, mas é iludido e irredutível em suas convicções abobalhadas...
  É um bom livro, cheio de simbolismo, divertido em alguns momentos, irritante em outros. Diria que o autor encerrou bem sua carreira.


Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

domingo, 7 de setembro de 2025

[Opinião] Tia Julia e o Escrevinhador - Mario Vargas Llosa #554

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"Saiu meio sufocado do estrado dos noivos e, entre flashes de fotógrafos, trambolhões, cumprimentos, conseguiu chegar ao jardim. Ali a concentração humana era menor e podia-se respirar. Tomou um cálice e viu-se cercado por uma roda de médicos amigos, por intermináveis piadas que tinham por tema a viagem de sua mulher: Mercedes não ia voltar, ia ficar com algum francês, no alto da testa dele já estavam começando a brotar uns chifrinhos.''
  A ideia era deixar para trás os livros que li antes de retornar com o blog e falar só sobre os que li a partir da retomada, mas como Vargas Llosa é minha obsessão desse ano, assim como Julian Barnes foi minha obsessão em 2024, resolvi falar dos livros que li dele esse ano, já que me acho apto a escrever sobre eles confiando na minha boa memória da leitura.
  Tia Julia e o Escrevinhador foi o quarto livro do autor que li na minha vida, o primeiro desse ano, e se tornou uma leitura especial não só por ele em si, mas no dia seguinte ao que concluí essa leitura, veio a notícia do falecimento do autor, o último do boom latino-americano, segundo alguns, o maior deles... já fiz um vídeo comentando brevemente sobre o autor na ocasião de sua morte, então de aqui pra frente vou me ater a este livro em específico.
  Tia Julia e o Escrevinhador é um livro de alto cunho autobiográfico, uma vez que o próprio autor é o protagonista e vai contar, com retoques romanceados, seu relacionamento com quem veio a ser sua primeira esposa. Julia era uma viúva de 32 anos, colombiana, irmã da esposa do tio de Vargas Llosa que vai até o Peru passar um tempo com a irmã enquanto busca um novo casamento.
"Tio Lucho advertia tia Julia que se se mostrasse exigente demais não encontraria marido peruano. Ela se queixava de que, também aqui, assim como na Bolívia, os moços bons eram pobres, e os ricos, feios, e que quando aparecia um moço bom e rico era sempre casado."
   Ao conviver com Julia, o então jovem de 18 anos, Vargas Llosa começa a despertar um interesse, que no início não é necessariamente romântico, mas logo evolui para isso. Vargas Llosa já possui pretensões literárias que se acentuam ao conhecer Pedro Camacho, um renomado autor de radionovelas que todos acompanham.
  A estrutura da obra é uma das favoritas do autor, com capítulos intercalados entre a história que dá nome ao livro e as novelas de Pedro Camacho, que funcionam aqui como contos, mas todos sendo interrompidos em seu momento de ápice e deixando a conclusão à cargo do leitor, inclusive com perguntas provocadoras. Essas novelas também são comentadas pelos personagens de fora delas, mas esses comentários não são exatamente sobre as histórias que lemos... Em uma dessas histórias conhecemos um personagem conhecido como cabo Lituma, e o autor tem um livro chamado Lituma nos Andes... se tem alguma relação real além da coincidência do nome, só saberei quando ler este outro livro.
  O livro, apesar dos confrontos com a família que não vê com bons olhos a relação entre o jovem com uma mulher mais velha que é uma tia de consideração, tem um teor bastante cômico, principalmente da metade para o final, quando Pedro Camacho começa a misturar suas histórias e ficar fraco da cabeça enquanto Varguitas (como tia Julia o chama) e a amada superam os obstáculos impostos ao relacionamento deles.
  Outro ponto interessante é que mesmo que toda a família esteja contra o namoro do casal protagonista, eles também têm aliados, a irmã de Julia e seu marido ajudam bastante para que o relacionamento engrene, a filha deles também é uma grande amiga do protagonista/autor... o que é interessante de se reparar quando você conhece mais da vida do autor... Vargas Llosa realmente se casa com a tia de consideração chamada Julia, da qual se separa depois de 8 anos, se não me engano, e se casa com a prima, essa que aparece no livro como amiga dele e que era uma das poucas familiares que aprovava o relacionamento com a mulher mais velha.
  É um livro super divertido, que me fez gostar mais do autor e, aliado a trágica notícia de seu falecimento, foi o responsável pela minha obsessão no autor que está em vigor em 2025.

 
Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos e prestigiados escritores da atualidade. Nascido no Peru, em 1936, passou a primeira infância na Bolívia. Viveu em Paris e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias.
Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual"
Faleceu, de causas naturais, em 13 de abril de 2025, em sua casa na cidade de Lima, no Peru.

domingo, 24 de agosto de 2025

[Opinião] Que Sejamos Perdoados - A. M. Homes #550

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"Ocorreu o acidente e então... tudo acontece. Não acontece na noite do acidente nem na noite em que todos estivemos no hospital. Acontece na noite seguinte, na posterior àquela em que Claire me disse para não deixar Jane sozinha, na noite depois que Claire parte para a China. Claire vai viajar, George degringola, e então as coisas acontecem. Coisas que jamais deveriam acontecer."


    Ok, vamos ver se ainda sei fazer isso...
  Pra quem não tá ciente, nesse tempo que o blog ficou largado às moscas, eu mantive os vídeos de leituras do mês lá no Youtube, mas é diferente... ainda mais despretensioso do que o que faço aqui... apenas breves comentários sobre cada livro, e este é um livro que estava ensaiando fazer um vídeo específico para ele, por ser um livro que curti e também por não ter nenhum vídeo no Youtube brasileiro, o que costuma ser meu critério pra gravar, enfim... falemos dele por aqui.
  Aqui conhecemos Harold (Harry) Silver, um professor de história fanático por Richard Nixon, está há anos escrevendo um livro sobre o ex-presidente. Harry é casado com Claire, uma mulher bem sucedida que trabalha, se não me engano e bem me lembro, numa empresa farmacêutica. Mas Harry sempre viveu à sombra do irmão mais novo, George, casado com Jane, rico e com dois filhos... Mas George não é a pessoa mais equilibrada do mundo, e pouco tempo depois de um jantar em família onde Harry se dói (não muito, mas se dói) de inveja da vida do irmão e de desejos carnais pela cunhada, George provoca um acidente de trânsito, e não fica muito claro se foi proposital ou não... mas ele atravessa um sinal vermelho e bate em outro carro e acaba matando um casal, deixando o filho deles, que também estava no carro, desesperado e desamparado.
  George vai para o hospital, a esposa de Harry precisa ir para a China em uma viagem de negócios e diz para ele ficar com a cunhada, para que ela não fique sozinha, já que ambos os filhos moram em uma espécie de internato (não no mesmo, ele num de meninos e ela num de meninas... obviamente). O previsível acontece: Harry e Jane começam a se envolver, e George, depois de fugir do hospital no que estava internado e voltar para casa encontra os dois... como ele está longe de ser a pessoa mais equilibrada do planeta, destrói a casa e ataca Jane, que é hospitalizada com traumatismo craniano e em coma... logo depois tem sua morte cerebral declarada.
  Com George detido em um hospital psiquiátrico, o escândalo na boca da mídia, Claire mandando Harry pastar e ele sendo o parente mais próximo dos sobrinhos... Harry começa a, lentamente, assumir a vida do irmão... mas não exatamente de propósito...
  Harry é um personagem bastante apático... ele não é uma pessoa lá muito cativante, não tem um grande senso de dever, mas seu coração é uma casa da mãe Joana, ele conhece várias mulheres em um período de... er... necessidades sexuais... mas isso não dura tanto tempo, ele logo cai na real (talvez o período de cio tenha passado), mas também não é um período que está no livro apenas para para torná-lo mais longo, uma dessas mulheres voltará no futuro e terá um papel importante... por mais detestável que ela seja... E quando me refiro ao coração de Harry ser uma casa da mãe Joana, ou um coração de mãe, melhor dizendo, não se refere a esse período, em específico, mas ao fato de que Harry, que acaba de perder a mulher (e a amante), passa de um homem sozinho para o responsável por várias pessoas (e alguns animais).
  Pode ser vista como uma história de redenção... mas pra mim me parece muito mais uma história sobre a continuidade da vida, sobre acolhimento e lidar com o inesperado... como todas as pessoas que passam pelas nossas vidas deixam um pouco de si marcados na gente, algumas pessoas são passageiras enquanto outras são motoristas permanentes... mas a gente nunca sabe quem são o que... e muitas vezes são as mais improváveis que ficam.
  É um livro com muita ironia, faz a gente dar risadinhas em diversos momentos, não muito politicamente correto, o que é ótimo, diga-se de passagem hehe. Inclusive na capa tem um aviso sobre o refinado humor negro da autora, elogiada, inclusive, por Salman Rushdie.
  Uma leitura divertida, que convida à reflexão, com um final fechadinho de aquecer o coração com uma promessa de que tudo pode ficar bem, e que permanece retornando à nossa mente muito depois de concluirmos a leitura (terminei ele no finalzinho de junho).


A. M. Homes nasceu em Washington e vive atualmente em Nova York. É autora de diversos romances, entre eles Este livro vai salvar sua vida e A encomenda, além de coletâneas de contos. Escreve para as revistas The New Yorker e Vanity Fair, e participou dos roteiros da série de TV The L World. Atualmente, é professora de escrita criativa na Universidade de Princeton. Seu trabalho foi traduzido para mais de vinte idiomas.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

[Opinião] Terra Papagalli - José Roberto Torero e Marcus Aurélio Pimenta #538

 Compre pela Amazon

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 191

Quote:
"Caso isso seja verdade, senhor conde, esses meus escritos esperam saciar, ao menos, três de vossas fomes. A primeira, e mais importante, será a fome de Deus, pois aqui tereis provas da grande bendição que cai sobre aqueles que crêem na sua força e no seu poder, armas tão necessárias como a faca e a espada para quem teve a desgraça de passar por confins tão ferozes quanto desconhecidos."

Opinião:
  Há muito já ouvia falar sobre esse livro, sobre ser um livro bem humorado sobre os primeiros portugueses que chegaram no Brasil, mas nada sabia dele além disso. Acho que posso começar essa postagem comprovando essa fama.
  Cosme Fernandes foi deixado no Brasil depois da primeira vinda de Cabral à essas terras, e aqui ficou, junto de vários outros "degredados" por cerca de trinta anos até que os portugueses voltaram pra se estabelecer. 
  Nesses trinta anos Cosme - que passou a ser conhecido como Bacharel da Cananéia, baseado em um homem que realmente existiu e que foi deixado no Brasil na época descrita, mas que muito pouco se sabe a respeito dele - faz sua vida, bem diferente da vida que conhecia em Portugal. Além de contar com muita malandragem e jogo de cintura para se estabelecer entre os povos nativos e os demais detratados.
  O livro tem muita realidade misturada à comédia que os autores criaram e desenvolveram muito bem, no decorrer da narrativa vemos até os "Dez mandamentos para se viver bem na Terra dos Papagaios" que era como chamavam o Brasil na época. Mas esses mandamentos são basicamente malandragens pra se dar bem nas costas dos outros, e é meio triste ver que muita gente os segue ainda nos dias atuais (mesmo que nunca tenham ouvido falar do livro).
  É um livro com um protagonista malandro e preguiçoso, mas que pra conseguir seus interesses se empenha em presepadas que tornam a leitura divertida e engraçada, até que você para pra pensar e começa a ver a sua própria malandragem e preguiça nos personagens, nesse momento, mesmo em meio às piadas você se obriga a fazer uma auto análise e tentar melhorar.
  É um livro de leitura fácil, divertida e que ainda consegue ser reflexiva, se você assim quiser. Escrito com maestria e bom humor.




















quarta-feira, 30 de agosto de 2023

[Opinião] O Self Essencial - Will Self #530

 Compre pela Amazon

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 291

Quote:
"Ele literalmente copia os sintomas de todo tipo de doença mental, pelo menos das que exibem alguma espécie de patologia definida: esquizofrenia, depressão crônica, hipermania, psicose depressiva. O problemas com as imitações de Tom, ou devo dizer as imitações de sua enfermidade, é que são atuações ruins. Tom reitera cuidadosamente cada detalhe registrado de um comportamento aberrante, mas com uma singular falta de convicção; é uma performance artificial e pouco convincente. Seu pai teria achado fascinante de ver."

Opinião:
  Will Self é um autor que despertou minha curiosidade já faz alguns anos, tentei um primeiro contato através da obra intitulada O Livro de Dave, do qual falarei sobre em algum momento... quando eu ler o livro, pois fiquei muito perdido na primeira tentativa e acabei deixando de lado, e resolvi ter um primeiro contato real com o autor lendo seus contos, que, segundo o que diz na sinopse desse livro, é a área de expertise do cara.
  Aqui, como bem explicado na capa, temos cinco contos e uma novela do autor, vou falar rapidamente sobre cada uma dessas histórias daqui a pouco.
  A escrita do autor é uma das mais imersivas que já li na minha vida, a forma como ele consegue transportar o leitor para o mundo que ele cria com as palavras é surpreendente, e faz isso parecer fácil, pois em poucas palavras ele torna tudo muito visível e experimentável. Ele não mede muito as palavras e não é lá muito polido, mas conduz uma narrativa como poucos que já li nessa minha vida de leitor. Passeando entre vários assuntos e com lições sutis, às vezes nem tanto, a cada história e personagem apresetado.
  O primeiro conto se chama A Pedra de Crack Grande que nem o Ritz. Que vai falar de dois irmão que deixam a vida de traficantes... pero no mucho... Um deles até que sim, vai pro exército, vira um cidadão descente e exemplar, mas o outro continua no mundo das drogas, mais como usuário do que como traficante, mas não por muito tempo. Em uma reforma no porão, Danny (o irmão redimido) acaba derrubando uma parede e encontrando uma substância muito estranha atrás dela, ele logo percebe que é uma pedra de crack de cocaína, é uma pedra gigantesca, uma verdadeira jazida natural... o que não faz sentido, eu sei, o autor, muito provavelmente também sabe, mas aqui entra a suspensão da descrença. Por curiosidade, depois de ler isso fui pesquisar de onde vinha o crack, e é basicamente um derivado ou subproduto da cocaína, que é feita a partir do refinamento das folhas de coca, depois que não sobra quase nada das fibras da folha só o muco/extrato essa substância é decomposta (sim, decomposta) com ácido sulfúrico ou gasolina, daí surge a droga... depois de saber disso ficou ainda mais incompreensível, para mim, como tem gente que tem coragem de consumir esse negócio. Enfim, agora que eles têm esse estoque infinito, irreal e ilógico da droga eles podem ganhar rios de dinheiro, e é isso que vão fazer... pelo menos no início.
  O segundo conto se chama Ala 9, nosso protagonista é um especialista em arte terapia que vai trabalhar na ala psiquiátrica de um grande hospital, a tal ala 9. O pai do nosso protagonista também já havia trabalhado ali e é conhecido do pessoal do hospital, como fica claro no trecho que destaquei no começo da postagem. Ali o protagonista será apresentado a vários e vários pacientes ali internados, cada um mais... peculiar, na falta de termo melhor, do que o outro... as apresentações vão se desenrolando, enquanto vemos o protagonista se ver cada vez menos convicto de sua sanidade, afinal a forma dos "loucos" verem a vida parece fazer cada vez mais sentido, ao menos para ele, até que surge o questionamento: quem é que está doente? Quem vive a sua vida, no seu mundo particular e sem incomodar ninguém, nem ser incomodado pelos problemas que estão fora de suas forças, ou quem passa a vida correndo pra cima e pra baixo querendo abraçar o mundo enquanto esquece de abraçar as pessoas próximas pois não lhes sobra tempo?
  Brinquedos Duros na Quebra Para Garotos Duros na Queda é o terceiro conto, não foi dos meus favoritos, e pra essa postagem não ficar muito grande vou falar só do que foi o meu conto favorito e os demais apenas nomear. O quarto conto é bastante interessante, se chama Compreendendo os Ur-Bororos, sobre um antropólogo que passou anos entre os nativos dessa tribo fictícia, e em uma visita a um antigo amigo vai contar suas experiências.
  A Volta dos Cinco Balanços foi meu conto favorito, começa com uma cena angustiante de acidente, com nosso protagonista se levantando depois de ser atropelado e vendo o corpo sem vida do seu filho no meio fio, nosso alívio é descobrir que isso é apenas um sonho do protagonista. Que ao acordar pega sua bebezinha e vai até a casa da ex-esposa buscar a penca de filhos que teve com ela para passarem o dia juntos, evamos acompanhar esse dia, sempre com o fantasma do pesadelo à espreita, lá no fundo dos pensamentos do protagonista. É um conto tenso e, em vários momentos, angustiante.
  A novela se chama Leberknödel, que é uma palavra alemã para bife de fígado, esse foi um caso que acho que poderia te sido mais curta, não tive essa sensação nas outras histórias, até porque eram mais curtas, mas enfim... aqui vamos acompanhar uma paciente terminal que viaja até Zurique planejando um suicídio assistido, mas ela vai encontrar é outra coisa nessa viagem... é uma história interessante, tem seus problemas mas também nos faz refletir, ficaria ali no meio termo, boa o suficiente, mas não mais que isso. De uma forma geral, o saldo do livro foi muito mais positivo do que negativo, me deixou curioso para ler os romances do autor que têm umas premissas muito intrigantes, pretendo encarar um deles ainda esse ano, o autor entrou fácil na minha lista de interesses/prioridades, tanto por sua imaginação bem incomum quanto pela sua maestria na escrita.




William Woodard "Will Self" (nascido em 26 de setembro de 1961) é um escritor Inglês, crítico e colunista. Ele é conhecido por sua sátira grotesca, romances fantásticos e contos.




 


quarta-feira, 23 de agosto de 2023

[Opinião] Relatos de um Gato Viajante - Hiro Arikawa #528

 Compre pela Amazon

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 230

Quote:
"Todas as criaturas viventes sob o sol já nascem com o instinto assassino! E não adianta nem tentar escapar dizendo que é vegetariano - a única diferença é que nesse caso não dá pra ouvir os gritos das plantas quando morrem! Caçar o que pode ser caçado é o instinto natural de nós, gatos. Sabe por que às vezes eu pego alguma presa e não como tudo? Isso se chama prá-ti-ca!"

Opinião:
  Esse livro estava no meu radar há um bom tempo... única e exclusivamente por se tratar de um livro japonês, mas não estava entre as minhas prioridades. Depois que tive certos problemas com o gato de estimação da minha irmã eu peguei certo ranço pelos bichanos e esqueci, propositalmente, da existência desse livro... até que ele venceu a votação para ser a leitura coletiva dos membros da Michelly Santos, aí fui e lá ler o livro do gato.
  Só pra constar: sempre preferi cachorros.
  Aqui conhecemos Nana, que é o tal gato do título, era um gato de rua que vivia nas imediações de onde Satoru mora, Satoru gosta dele, alimenta vez ou outra e até faz um carinho quando o gato deixa, mas o gato apenas tolera Satoru... até que é atropelado e vai pedir ajuda ao humano. Depois disso eles passam a viver juntos, e é aí que Satoru batiza o gato com o nome Nana, isso porque ele tem o rabo torto e parece formar um sete (nana em inglês é sete) e também porque Satoru já teve um gato com uma mancha que parecia um oito e era chamado de Hachi (que, adivinha! É oito em japonês)
  Com a narração sendo dividia entre o gato e um narrador onisciente vamos acompanhando as viagens de Satoru em busca de um novo lar para o Nana, já que não vai poder mais ficar com ele. O motivo? É previsível e fica cada vez mais evidente, mas o livro não é sobre isso (sobre o motivo, no caso)
  Nessas viagens Satoru vai reencontrar pessoas que fizeram parte da sua vida no passado, várias delas conheceram o antigo gato, inclusive, e quando eles se reencontram somos lançados em um flash back que vai mostrar um pouco do passado do Satoru com a pessoa em questão, e esses momentos relembrados, juntamente com as conversas no presente, trazem grandes lições de vida que fazem o livro valer a pena. Não são lições de vida inéditas nem nenhuma descoberta da pólvora, mas são coisas que a gente acaba negligenciado na nossa vida, normalmente até ser tarde demais.
  Como é comum na literatura japonesa, é um livro bastante´melancólico, que vai falar sobre a vida e sua brevidade, sobre as relações humanas e o amor aos animais, bem como de família, lealdade e amizade, passeando também por temas como perdão e fé.
  O livro termina com uma bela mensagem de esperança, que pode ser interpretada de diferentes formas dependendo da sua vivência e suas crenças, basta você ajustar as suas lentes ao texto. Achei um livro lindo. Não vai figurar entre os meus favoritos, mas vale a leitura.

Hiro Arikawa ganhou o décimo prêmio Dengeki Novel para novos escritores por Shio no Machi: Wish on My Precious em 2003, e o livro foi publicado no ano seguinte. Foi elogiado por sua história de amor entre uma heroína e um herói dividido pela idade e status social, e por sua representação de estruturas militares. Embora ela seja uma romancista leve, seus livros do seu segundo trabalho em diante foram publicados em capa dura juntamente com mais obras literárias com Arikawa, recebendo um tratamento especial por parte de sua editora, a MediaWorks. Shio no Machi também foi publicado posteriormente em capa dura. Seu romance de 2006, Toshokan Sensō (The Library War) foi escolhido como número um do Hon no Zasshi para entretenimento no primeiro semestre de 2006, e ficou em quinto lugar no Honya Taisho para aquele ano, competindo contra romances comuns.




domingo, 20 de agosto de 2023

[Opinião] O Original de Laura - Vladimir Nabokov #527

 Compre pela Amazon

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 295

Quote:
"O romance Minha Laura foi iniciado logo depois do final do caso amoroso que narra, foi completado em um ano, publicado três meses depois e prontamente despedaçado por um crítico de um jornal importante. Sobreviveu severamente e com o acompanhamento de grunhidos abafados da parte das Parcas bibliômanas, suas protetoras invisíveis, infiltrou-se no alto da lista de mais vendidos e depois começou a escorregar, mas parou a meio caminho no gelo vertical. Uma dúzia de domingos se passou e tinha-se a impressão de que Laura havia de alguma forma grudado no sétimo degrau (o último respeitável) ou que, talvez, algum agente anônimo trabalhando para o autor estivesse comprando toda semana os exemplares necessários para manter Laura ali; mas veio o dia em que o alpinista acima perdeu pé e despencou, deslocando os números sete, oito e nove num colapso geral além de qualquer esperança de recuperação."

Opinião:
  Chamar esse livro de inacabado chega a ser um eufemismo. Afinal o livro só foi iniciado.
  Como é um tanto difícil falar sobre a história narrada no livro vou deixar isso pra depois e falar um pouco sobre a história do livro, que é até mais interessante, na minha opinião.
  Vladimir Nabokov é um autor singular, este é o terceiro livro que leio dele e é inegável a habilidade narrativa que ele tem, poucos autores tem tanto domínio das palavras e da construção de personagens e enredo, depois de vários livros publicados ele começa a trabalhar, já bem passado dos 70 anos e com a saúde não muito em dia, em seu novo livro, O Original de Laura, criou as fichas muito bem organizadas, numeradas e tudo, com o esqueleto da história, mas antes de poder dar corpo para a história ele acaba hospitalizado, antes de falecer ele pede para a família para que o livro seja destruído, ou melhor, para que as fichas com ideias para o livro fossem destruídas...
  Isso tudo nos é explicado por seu filho Dmitri na introdução do livro. Esse mesmo Dmitri, depois de mais de uma década da morte do pai, em meio a tantas enrolações para destruir as fichas, ele resolve publicar, mesmo que o último desejo de seu pai fosse o oposto, só isso já considero uma falta de respeito com o escritor, mas enfim... ele diz que a história já estava avançada o suficiente para ser compreendida pelos leitores (marromeno, como eu disse, não chega a ser uma história, são fragmentos de ideias) e que era um livro que merecia vir a público... pra mim ele só quis ganhar mais dinheiro usando as fichas do pai como um belo caça-níquel, ele sabia que venderia e com o pai morto, pra quem iria o dinheiro dos direitos? Então...
  Não que o livro seja ruim, longe disso... mas não chega a ser um livro, é só uma ideia, o trecho que separei acima já explica muito sobre o que é o livro, tem algumas outras coisas, mas o cerne do livro é o romance sobre a Laura, é um livro dentro de um livro, onde vamos acompanhar a história narrada no livro, a história de publicação desse livro e a história de um pessoal lendo esse livro, então, se o autor tivesse tido tempo para concluir e lapidar, dá pra ver que seria uma ótima história metalinguística escrita com toda a habilidade que quem já leu algo do autor já conhece. Eu gostaria muito de ter visto essa história concluída.
  Vemos também algumas... ligações/ referências a outras obras do autor, como não li tanta coisa assim dele, identifiquei algumas referências de Lolita, como, por exemplo:
"Seus amantes glamorosos foram então substituídos por um inglês velhote mas ainda vigoroso que buscava no estrangeiro refúgio dos impostos e um lugar conveniente para suas transações não exatamente legais no tráfico de vinhos. Ele era o que se costumava chamar de Charmeur. Seu nome, sem dúvida adotado, era Hubert H. Hubert."
  Não tem como ler isso e não lembrar do Humbert Humbert, o narrador galante e desprezível de Lolita.
  Outro detalhe é a forma como esse livro foi publicado, ele te quase trezentas páginas, mas cada ficha de anotações do autor ocupam duas páginas, e as maiores não chegam a dez páginas. a foto da ficha original n página da direita, e a transcrição traduzida na página da esquerda, o que é interessante para vermos as rasuras e a letra original do autor, mas também serve para tornar o livro mais volumoso, essas (quase) trezentas páginas não seriam nem trinta se este fosse um livro impresso como um livro comum.
  Basicamente é um "livro" interessante, para quem é fã do autor acho que vale a experiência, mas se você nunca leu nada dele, não acho que seja uma boa porta de entrada em sua obra.

Vladimir Nabokov nasceu em 1899, em São Petersburgo (Rússia), numa família da antiga aristocracia. Em 1919, a instabilidade produzida pela revolução bolchevique obriga a família a abandonar a nova União Soviética e ir para a Inglaterra. Nabokov estuda em Cambridge até 1922, licenciando-se em literatura russa e francesa. Em seguida, muda-se para Berlim, onde dá aulas de tênis e inicia sua produção literária. "Lolita" é seu principal romance.
Em 1926, após publicar poemas e contos, lança seu primeiro romance, "Machenka". Depois de uma estadia em Paris, fugindo dos exércitos nazistas, chega em 1940 aos Estados Unidos, onde se dedica ao ensino de literatura russa em várias universidades além de trabalhar no departamento de entomologia (o estudo dos insetos) em Harvard.




quarta-feira, 16 de agosto de 2023

[Opinião] Sagrada Família - Zuenir Ventura #526

 Compre pela Amazon

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 232

Quote:
"O jornal me fez sentir orgulho de minha sagrada família. A realidade, porém, guardava outra revelação, ainda mais chocante: Cotinha não era filha de Tia Nonoca; fora adotada ainda bebê. Sua mãe biológica era na verdade a Isa. Que Isa? (Eu tive que fazer algum esforço de memória para me lembrar de que se tratava da meretriz mais antiga e famosa da Vila Alegre, primeira amante de Douglas."

Opinião:
  Não tenho nem palavras para descrever o quão ruim este livro é.
  Digo isso com dor no coração, porque sempre gostei bastante do catálogo da Alfaguara, acho essa capa muito bonita e mesmo nos livros que não gosto muito consigo retirar lições que fazem com que a leitura tenha valido a pena... não foi o caso aqui.
  Coloquei este livro nos meus 12 para 2023, seguindo o desafio MSL, o desafio do mês seria um livro que tratasse da relação ente pai e filho, e acabei dando um belo tiro no pé, já que aqui até trata dessa relação, mas para não ser tão doentio e de mau gosto, vamos dizer que trata mais da relação entre mãe e filha.
  Vou contar os spoilers dessa bomba porque quero prevenir a todos que tenham a intenção de ler essa porcaria a desistirem da ideia. Comecei já com o quote que separei, é a "grande revelação" do livro.
  Aqui vamos acompanhar, num primeiro momento, o nosso narrador, um guri que adora visitar a tia viúva que, por sua vez, adora visitar o farmacêutico para receber "injeções", numa dessas visitas nosso narrador acaba vendo que não era bem uma agulha que o farmacêutico introduzia na tia... Qual a relevância disso? Só fazerem umas piadinhas com ela no decorrer da história, mais nada.
  Depois disso o narrador simplesmente vai esquecer que é um personagem e vai focar a narrativa na tia Nonoca e suas filhas, Cotinha e Leninha, mais na Cotinha, a mais nova, que um belo dia vai conhecer um belo rapaz chamado Douglas, 14 anos mais velho... eles logo começam a se engraçar e quando tia Nonoca descobre ela faz uma escândalo e ameaça Douglas e Cotinha para que não se envolvam mais.
  Muita gente fala para Cotinha que Douglas não presta e que ele é violento e tals, mas isso os outros falam, o autor não tem a capacidade de mostrar nada disso para o leitor, muito pelo contrário, a única coisa que o autor mostra é um cara super apaixonado, que desafia a sogra e espera até a amada fazer 18 anos para poderem se casar... antes do casamento eles ainda se pegam como dois cachorros no meio da rua, em outra cena animalesca de sexo totalmente despropositada e gratuita.
  Enfim Douglas e Cotinha se casam, quando ela faz 18 anos e ele está com seus 32... como o autor não desenvolveu absolutamente nada do Douglas até o momento, não vai ser agora que ele vai dar um passado e uma vida para o personagem, então ele vai morar com Cotinha na casa de Nonoca, que continua odiando ele com todas as forças, por esse motivo eles não convivem muito... como moram na mesma casa e não convivem? Fácil, ele vive trancado no quarto enquanto Cotinha trabalha e dá comida para ele no quarto... não bastasse ele ser um completo inútil e vagabundo ele começa a bater em Cotinha, encher a cara e praticamente estuprá-la sempre que tem vontade... Ah, então agora o autor nos mostra que ele realmente não presta... Ao presenciar uma das surras que ele dá na esposa, tia Nonoca parte para cima dele e ameaça matá-lo se ele tocar em Cotinha novamente... outro episódio solto, sem conexão com nada que virá depois.
  Aí, do nada (como tudo no livro, o autor vai tirando coisas do chapéu achando que ninguém vai perceber os rombos de roteiro), Douglas passa a ser mostrado como um policial de carreira... no batalhão ninguém gosta dele também, porque ele não presta, não é mostrado, novamente, mas a essa altura isso já não surpreende, como ele pode ter uma longa carreira na polícia sendo que vivia trancado no quarto sendo sustentado pela esposa enquanto tratava ela como brinquedo e saco de pancadas? Ninguém precisa de uma explicação , né?
  Como ele é super odiado pelos colegas eles o matam e fazem parecer que foi um assalto, isso depois de 3 anos do casamento dele com a guria lá... os desdobramentos disso? Nenhum, o autor simplesmente cansa de fingir que está escrevendo uma história coesa e pula cinquenta anos para o futuro, onde o narrador lembra que é um personagem do livro e volta a aparecer, reencontra um amigo do Douglas que apareceu por duas linhas há tanto tempo atrás, lá quando Douglas conheceu a Cotinha e este cara vai explicar, do nada também, o porquê de a tia Nonoca odiar tanto o genro.
  Basicamente, um dos namoricos de Nonoca era com Douglas, que a abandonou sem dar explicação e ela ficou ressentida, isso muito antes de ele conhecer Cotinha... mas essa não é a grande revelação do livro, ficamos sabendo que Cotinha era filha adotiva de Nonoca, coisa que o autor achou desnecessário explicar antes, e então ficamos sabendo a verdadeira origem da guria, que é, na verdade, filha biológica de Douglas... Sim, o cara que casou com ela.
  Não apenas esse relacionamento doentio e incestuoso torna o livro intragável, mas também há várias conversas com insinuações, ou declarações explícitas, sobre o desejo de homens de 30/40 anos, com desejo sexual por menininhas de 12 anos. Longas conversas romantizando estupro e pedofilia... o cara que escreveu essa porcaria deveria estar preso.
  É o primeiro livro de ficção do autor, e o único que vou ler, teoricamente ele é sobre os reflexos da Segunda Guerra numa cidadezinha no interior do Brasil, mas em dois parágrafos é mencionada a guerra e depois ninguém mais lembra que ela tá acontecendo.
  É sem dúvida a pior coisa que já tive o desprazer de ler, e só resolvi escrever sobre ele aqui porque acho que tenho o dever de avisar quem eu puder que isso aqui é uma porcaria que não vale o seu tempo.

Zuenir Carlos Ventura, filho de Antônio José Ventura e Herina de Araújo, nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba (MG); quando adolescente trabalhou como contínuo no Banco Barra do Piraí, faxineiro do Bar Eldorado, balconista da Camisaria Friburgo, entre outros.
Em 1954 mudou-se para o Rio de Janeiro e entrou para a Faculdade Nacional de Filosofia, atual UFRJ, formando-se em 1958 em Letras Neolatinas.
No ano de 1955 exerceu o cargo de assistente do filólogo Celso Cunha na disciplina de Língua Portuguesa, na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A página dele no skoob tem muita coisa escrita, mas não vale a pena colocar tudo aqui, como o livro é muito pior que ruim, não vou colocar nota, já que zero seria um elogio a esse lixo.



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