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quarta-feira, 18 de agosto de 2021

[Opinião] Pilatos - Carlos Heitor Cony #353

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Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 224

Quote:
"Sou um homem de manias e pavores. Uma de minhas manias, um dos meus pavores, é a voz baixa. Acho que as coisas ou merecem ser ditas e deverão ser ditas - normalmente, no tom habitual de cada um - ou não merecem ser ditas, em voz baixa ou alta dão na mesma."

Sinopse:
  Nono romance de Carlos Heitor Cony, Pilatos é um dos livros mais importantes na obra do autor e, também, um de seus preferidos. Tornou-se uma obra emblemática por fazer uma sátira incisiva sobre a situação política e a contestação no Brasil durante os Anos de Chumbo. "É a minha visão do mundo, e acho que vou morrer com ela", disse o escritor, que, após tê-lo publicado, sentiu-se tão satisfeito com o resultado da obra que decidiu não mais escrever. O ano era o de 1974. Cony passou então 23 anos sem publicar nenhum outro romance, até sua volta à literatura com o consagrado Quase memória, de 1995. Pilatos conta a epopeia às avessas de um homem que, após passar por uma série de amarguras na vida, é vítima de um atropelamento e vaga pelas ruas do Rio de Janeiro carregando seu órgão sexual mutilado num vidro de compota. Em seu caminho, pontilhado de aventuras picarescas, encontrará os personagens mais bizarros do submundo da cidade.
  "Sei que a história existe, está escrita e inscrita em minha carne", diz o memorável personagem de Cony ao narrar suas absurdas aventuras Vagando numa jornada sem propósito, pontilham sua história bêbados, beatas, fascistas, mendigos, cineastas, sacristães, donos de bares infectos e policiais truculentos, cada qual tentando ganhar a vida à sua maneira. E, ao seu lado, vai o leitor, surpreso com cada novo desdobramento e cada inesperado personagem da considerada obra-prima de Cony.

Opinião:
  Vamos falar mal de autor favorito? Vamos!
  Bom, Pilatos está para Cony como Norwegian Wood está para Murakami. São dois livros que eu detesto de autores que eu adoro. Fiquei em dúvida entre as duas formas de começar essa postagem, resolvi colocar as duas...
  Este era o livro favorito do próprio Cony e foi o último que publicou antes do hiato de 23 anos em sua produção literária, voltando com o considerado por muitos como seu melhor livro, Quase Memória. Espero que depois de escrever Quase Memória o autor tenha trocado de favorito porque olha... nunca fui um grande fã do Cony como pessoa, mas considerar este seu melhor trabalho é demais para o meu estômago.
  Mas sobre o que se trata a história? Bem, pela forma que ela começa você pode ter uma noção:
"É difícil - ou inútil - datar o início desta história. Ela está começando hoje, talvez só comece realmente amanhã, mais tarde ainda, ou nunca. Sei que a historia existe, está inscrita em minha carne, mas creio que ela não teve um início, nem mesmo no dia em que resolvi dar um nome ao meu p@u."
  A partir daí já sabemos que o protagonista batiza seu órgão genital de Herodes (Se quiser já pode fazer sua interpretação do título) e em um dia cinzento, apenas o primeiro relatado na cinzenta vida do protagonista, ele sofre um acidente, na hora não sabemos que é um atropelamento, não fica claro, só quando ele acorda no hospital com um vidro de compota do lado da cama com "Herodes" boiando dentro que ele (e nós) fica sabendo disso.
  O protagonista então faz uma promessa, de não se separar do seu membro que foi separado dele, a partir daí acompanhamos a sua vida, sem familiares ou amigos que perde o emprego e é despejado do apartamento sem poder sequer pegar suas coisas devido ao tempo que esteve hospitalizado e do atraso do aluguel. Ele vai vagar pé rua praticamente como um indigente, onde pessoas vão ter as mais variadas reações ao se depararem com "Herodes" e conhecer sua história.
  O livro é cheio das críticas a sociedade e ao comportamento humano e, teoricamente, cheio de humor... Mas não é o meu tipo de humor... toda e qualquer piada que a mente mais pervertida pode imaginar em relação a genitália masculina será feita, ou mostrada, aqui em algum momento.
  Vários personagens são apresentados, nenhum deles interessante o suficiente pra salvar a história que foi um parto ler até o final. 
  Vou manter na estante única e exclusivamente por causa da coleção do autor e da Alfaguara, porque nem a suposta importância das críticas levantadas ou da obra em si me fariam guardá-lo por outro motivo.




sábado, 19 de dezembro de 2020

[Opinião] A Tarde da Sua Ausência - Carlos Heitor Cony #324

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Editora: Alfaguara 

N° de Páginas: 188

Quote:
  "Era a única que não estava ali. Por um acaso que não percebera antes, aquele instantâneo do passado, congelado na foto em Preto e Branco, a denunciava. Pior: a desmascarava. Ela nunca estivera, nunca estaria ali, ave estranha no ninho, patinho feio às avessas, ausência permanente na longa tarde que breve comecaria para todos."

Sinopse:
  Henrique recebe pelo computador uma foto em Preto e Branco, tirada nos anos 1960, da numerosa família Machado Alves, na varanda de seu casarão em Ipanema. Álvaro, o patriarca, está "no cimo da pirâmide formada por todos, amontoados nos degraus da pequena escada que levava à varanda".
  Na imagem, há uma única ausência: Vera, uma menina insinuante, filha mais nova de Álvaro e ex-cunhada de Henrique. "Teria treze anos na época. Ela tirara a foto. Ao enquadrá-la, nao cenralizara o grupo. No canto esquerdo aparecia a metade da rede que cortava a varanda em diagonal."
  A partir dessa imagem, Carlos Heitor Cony reconstitui com maestria a lenta desintegração de uma família carioca. E, entre deslocamentos no tempo, compõe uma história de choques e desencontros entre Henrique e a enigmática Vera.

Opinião:
  É complicado falar desse livro. Ele é, sem dúvida, um dos melhores do autor, que é um dos meus autores favoritos... mas ele tem uma cena... complicada, pra dizer o mínimo... É essa cena não é mostrada só uma vez.
  Enfim, essa é a história do declínio de uma poderosa família carioca. Henrique, nosso er... protagonista... recebe uma foto no computador, foto tirada na casa da família em Ipanema, a única que não aparece na foto, pelo óbvio motivo de que foi ela que tirou a foto é Vera, a sua cunhada adolescente.
  A partir desse ponto somos jogados de volta no tempo, em uma tarde quente em Ipanema e conhecemos melhor os personagens. Um destaque para Álvaro e a esposa, que vou destacar um trecho apenas para mostrar como esse homem podre de ricofoi educado por seu pai. 
"Para as filhas, tudo. No andar de cima, quartos com cortinas rendadas, boas roupas, aulas de piano. Para os filhos, não descobrira outro método de ensino, outra maneira de educação senão o próprio exemplo. Quando um deles completava quinze anos, António descia ao porão. Acordava o aniversariante. 'Você hoje faz quinze anos. Com essa idade, eu saí da casa do meu pai. Dormi em bancos e carreguei malas no Porto de Lisboa e na Central do Brasil. O que eu tive, vocês terão. Deus te abençoe! Rua!'"

    

  

  Não preciso dizer que ri um pouco nessa parte, né?
  Vemos, rapidamente, a Ascenção da família Machado Alves, mas vemos principalmente a derrocada da mesma não apenas na questão financeira e de como eles vão perdendo, pouco a pouco, mas ao mesmo tempo em um curto espaço de tempo, toda a fortuna e prestígio, mas tambem como os membros da família vão se desgarrando, indo embora, fugindo, morrendo...
Quanto isso vemos também as idas e vindas de Vera, que se tornou um mulher complicada, na falta de adjetivo melhor. A relação dela com Henrique passeia por diferentes níveis e denominações, ja sua relação com seu pai não apresenta grandes mudanças, talvez apenas um desgaste e afastamento progressivo.

O fato de, por boa parte da vida, inclusive depois que toda a fortuna e prestígio se extinguirem, a única pessoa que resta para cuidar de Álvaro é Henrique, que era, no início, um genro indesejado e interesseiro mostra, muito mais do que um julgamento errado, a forma como as pessoas mudam no decorrer dos anos (porque Henrique era sim um cara bem aquém de um exemploa de moral). Isso da parte de ambos, essa é, provavelmente, a relação mais interessante de se acompanhar no decorrer da história.
  Vera e seu "espírito livre" acaba se tornando uma personagem irritante, ou melhor, não deixa de ser a pessoa de caráter duvidavel em momento algum, até tem uma semi redenção no final de tudo, mas mesmo assim não chega a demonstrar um amadurecimento real.
  É um livro sobre relações humanas, diferentes formas e a transformação delas, como as coisas e pessoas mudam, como o tempo leva tudo, como se fosse um rio furioso, e so restam as lembranças, boas ou más.  





sábado, 7 de novembro de 2020

[Opinião] Romance Sem Palavras - Carlos Heitor Cony #313

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Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 146

Quote:
"Eu me sentia menos homem na proporção em que via o resultado do que um homem pode fazer a outro homem."
Sinopse:
  Em seu décimo terceiro romance, agora em quinta edição, Carlos Heitor Cony entrelaça a vida de três personagens a um dos momentos mais dramáticos da história brasileira. Beto, homem solitário, que evita se envolver diretamente na luta contra a ditadura, é preso por agentes do governo militar. Na cela, acaba por salvar a vida de um homem à beira do colapso: João Marcos, que deixou o sacerdócio para entrar na luta armada.
  É o início de uma amizade duradoura entre eles, "naufragos de um mar também tormentoso", mas conturbada com a chegada de Iracema, mulher enigmática, conhecida apenas pelo codinome que usa na clandestinidade. Amante de um, casada mais tarde com outro, será o pivô de um falso triângulo amoroso que esconde algo por trás das aparências. Em Romance se palavras,Cony retorna aos terríveis anos de repressão para contar uma história surpreendente sobre amor, enganos e decepções.

Opinião:
  Que o Cony é meu autor brasileiro favorito já não é segredo para ninguém, que estou tentando arranjar todos os livros dele também é fato conhecido... que tenho preferência pelas edições da Alfaguara também é verídica.
  Aqui conhecemos Beto, em uma narrativa intercalada entre o período que foi prisioneiro político no período do regime militar e um tempo depois. Logo no começo Beto recebe seu novo "colega de cela", um padre chamado João Marcos, homem que já era conhecido de Beto, pelo menos seus gritos, que Beto podia ouvir de sua cela. João Marcos é jogado dentro de sua nova cela em um estado deplorável, em carne viva depois de uma sessão de tortura, ainda com um arame enfiado em sua uretra, usado para eletrocutar o coitado, como bom companheiro de cela/ser humano, Beto o ajuda como pode, retirando, inclusive, o dito arame (fato que vai reverberar pelo resto da narrativa).
  Algum tempo depois, quando Beto já não é mais prisioneiro ele se une a Iracema, então sua namorada, e resgatam João Marcos.
  No que seria o presente, alguns anos depois, vemos os três na casa de Iracema e João Marcos, que depois do período de prisão abandonou o ofício de padre e se casou com Iracema. Beto não remoe o término do seu relacionamento com a mulher pois o que passaram meio que liga os três personagens em um nível ainda mais profundo do que o casamento dos amigos. nessa casa o lugar favorito de Beto é na ponta do cais, olhando o lago, cena muito bem representada pela capa desta edição.
  Apesar do passado e dos traumas compartilhados, ou talvez justamente por isso, Beto e João Marcos nutrem uma amizade e companheirismo mútuo. Mas talvez a fidelidade, ou falta dela, de Iracema bote essa amizade em xeque.
  O livro parece ser sobre um triângulo amoroso e como o amor romântico pode rivalizar com uma amizade profunda. Cony escreve de forma maravilhosa, mas neste livro ele leva isso para outro patamar, a escrita é tão envolvente que você consegue ler o livro completo em poucas horas. 
  Sempre indico a leitura de Cony, mas devo dizer que este é um dos melhores.
 

 


sábado, 3 de outubro de 2020

[Opinião] O Piano e a Orquestra - Carlos Heitor Cony #308

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Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 296

Quote:

"Ninguém poderia aceitar que ele, desarmado,fosse convocar e provocar o poderoso adversário."


Sinopse:
  Vencedor do Prêmio Nacional Nestlé de Literatura, O piano e a orquestra é um dos livros mais impactantes da segunda fase da produção literária de Carlos Heitor Cony,  reiniciado em 1995, depois de vinte e três anos sem publicar. No centro do romance estão dois primos, Olavo e Francisco.
  Apesar dos temperamentos opostos, os dois se encontram de tempos em tempos. Olavo é um sujeito pacato, que procura uma vida estável no Rio de Janeiro, onde segue a carreira de jornalista. Já Francisco, de uma pequena cidade no interior do estado, é o seu contrário. Intrigado com a figura de Jesus Cristo e com as histórias da Bíblia, ele desde cedo toma uma posição que definirá o seu destino: "Ele seria contra. Contra como Lúcifer havia sido, na terrível batalha contra a tirania do Criador."
  Francisco lança-se, então, na missão de desafiar Deus, a quem chama de o Outro, enquanto ganha a vida como toureiro em um circo decadente na cidade em que nasceu.

Opinião:
  Na minha saga de ler a Obra do Cony confesso que esperava muita coisa... menos uma vaca falante...
  Mas estou me adiantando, talvez não devesse nem falar da vaca, já que ela aparece quase no final do livro...
  Primeiro vamos falar sobre como esse livro chegou até mim, como muitos sabem estou fazendo a minha coleção da obra do autor, e estou dando prioridade para as edições da Alfaguara, esse era um livro que eu nem mesmo sabia da existência, até encontrá-lo no Skoob ao digitar o nome do autor na busca de livros disponíveis no plus. O livro estava em perfeito estado e não perdi tempo... já fiz a minha solicitação.
  Bom, aqui vemos que Cony fumou um pouco do mofo que o Murakami sempre fuma antes de sentar para escrever, começamos a história conhecendo a árvore genealógica de uma família peculiar, quem nos conduz pela narrativa é Olavo, membro pacato dessa família que trabalha como jornalista no Rio de Janeiro, Olavo é tão pacato que muitas vezes esquecemos que ele é também um personagem da história, parecendo, diversas vezes, apenas o narrador.
  Mas temos Francisco, um cara problemático, com todos os atributos que essa alcunha pode fornecer. Depois de ler a Bíblia Francisco decide que será oposição, e começa a acreditar que é a forma encarnada do diabo, dedicando sua vida ao ato de desafio a Deus, que ele chama de O Outro. A história se passa na cidade de Rodeio, uma cidadezinha do Rio construída às margens dos trilhos da Central do Brasil, onde Francisco vive e apronta, além de trabalhar como toureiro de um circo onde não há touro, apenas um boi que foi "roubado" de um abatedouro.
  A premissa do livro é basicamente essa, acompanhamos alguns outros personagens mas o foco principal da história, pasmem, é a comédia, o autor traz diversas críticas veladas, escondidas debaixo de piadas, não é aquele humor que te fará rolar de rir, mas ele tem seus momentos. Como a história da vaca, que falei no início, além de um outro episódio que acontece bem no início (o livro não tem uma linha cronológica concisa, ele vai e volta como achar melhor) quando Francisco finalmente decide levar seu desafio a Deus às vias de fato, e sobe em uma colina da cidade vociferando ameaças ao Criador... e é pulverizado por um raio.
  É, sem sombra de dúvida, o livro mais louco do autor que li, e ele ganha o prêmio de obra inesperada, sem sombra de dúvida, mas confesso que não figura entre meus favoritos, apesar de ser uma obra bastante divertida, como já disse.
  O livro teve sim, bastante coisa que me desagradou, mas colocando na balança acho que a experiência de leitura foi mais positiva do que negativa. Se alguém já leu (o que duvido muito, o autor não é muito popular e esse livro é meio esquecido) me conta o que achou, pra quem não leu fica a dica, é uma boa leitura, que pode irritar em alguns momentos... mas também divertida.






quarta-feira, 13 de maio de 2020

[Opinião] Informação ao Crucificado - Carlos Heitor Cony #274

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Editora: Alfaguara

N° de Página: 120

Quote:
"Ora, serei o sal da terra, isso é o que importa, sal da terra. Que será do sal que não salga? Aquele que bota a mão no arado e olha para trás não é digno de mim. Até que ponto botei a mão no arado? Até que ponto se pode olhar para os lados sem ser para trás? "

Sinopse:
 Publicado originalmente em 1961, Informação Ao Crucificado é um texto contundente, em qual Carlos Heitor Cony aborda com maestria os temas da fé e do desencanto. Considerado um marco na obra do autor, o livro - agora lançado pela Alfaguara - tem forte base autobiográfica, onde autor e narrador se fundem na figura de um jovem em dúvida com a religião que decidiu abraçar.
  João Falcão é um jovem que resolveu ingressar em um seminário pela "beleza do sacerdócio". Está prestes a se ordenar, mas suas dúvidas parecem aflorar em um ambiente que é cada dia mais hostil. Seu crescente pendor à literatura, a disputa com os outros rapazes e as intrigas dos superiores levam-no, por fim, a ver abaladas suas mais profundas convicções.
  Em Informação ao Crucificado, um dos mais importantes romances da literatura brasileira, o personagem João Falcão relata em seu diário as dúvidas, as intrigas do seminário, as discussões filosóficas e literárias com colegas e, finalmente, as tentações que o obrigam a repensar o futuro eclesiástico. Nas páginas de seu caderno, é possível reconhecer o mesmo olhar preciso e irônico de Carlos Heitor Cony, numa história de busca pela fé e arrependimento que marcou a própria vida do autor. Ao narrar o dia-a-dia no seminário, com pequenos momentos de descontração em meio a um ambiente em que impera o silêncio e a competição velada, ele apresenta um relato confessional único, marcante tanto pela beleza quanto pela profundidade.

Opinião:
  Não é segredo que Cony se tornou meu autor brasileiro favorito, o que me faz querer tudo que ele já escreveu, mesmo não tendo muita simpatia por ele enquanto pessoa.
  Aqui temos novamente uma ficção baseada na vida do próprio autor.
  O livro é escrito em formato de diário por João Falcão, estudante de seminário meio desiludido. É uma história de apostasia, mas conforme vamos acompanhando a história vemos que ele nunca foi a pessoa com mais fé do mundo.
  É interessante ver como funciona um seminaro de padres, e nesse caso foi meio chocante ver que tem vários livros são proibidos para os pretensos padres, inclusive, pasmem, a Bíblia, nesse livro vemos uma conversa onde o protagonista confronta o padre reitor dizendo que acha a Bíblia um livro fascinante, mas que não tinham autorização para lê-la por completo, o que é extremamente controverso, parando para pensar.
  Não cheguei a pesquisar para saber o quão real é isso, admito que quando li acreditei que era assim mesmo, mas não é porque está nesse livro que devemos pegar a informação como verdadeira e pronto.
  Como eu disse, é um livro muito interessante e escrito de uma forma magistral. Vi muita gente dizendo que esse é um livro sobre amadurecimento e despertar do intelecto, mas não vejo dessa forma, muito pelo contrário, o que eu vejo é alguém sendo tomado pela soberba e se achando maior do que realmente é.
  Obviamente eu indico o livro, já considero Cony meu autor brasileiro favorito, e mesmo detestando boa parte dos personagens em boa parte das histórias, é um autor que tenho por meta ler tudo que ele já escreveu.


quarta-feira, 22 de abril de 2020

[Opinião] A Casa do Poeta Trágico - Carlos Heitor Cony #269

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Editora: Objetiva

N° de Páginas: 216

Quote:
"Mona estava ali, às suas costas, avaliando-o, antes de enfrentá-lo. Avisara que viria, não a compreendesse mal, nem apressadamente: desejava ouvir o que já sabia. Era pouco. Era muito. Talvez não fosse pouco nem muito, era o suficiente."

Sinopse:
  "O homem – qualquer homem – é uma casa habitada por um poeta que, sabendo ou não sabendo, tem um sentido trágico. Poeta que inventa o próprio poema, poeta condenado a habitar a casa que é ele próprio, e de repente as paredes se desmancham e não é mais casa, sobrando o cão à porta, uma porta que não existe mais, o cão coberto de cinzas guardando o nada."
  Vencedor do Prêmio Jabuti, além de Livro do Ano em 1997, A Casa do Poeta Trágico , que a Objetiva relança agora em sua sétima edição, é um dos romances preferidos de Carlos Heitor Cony, membro da Academia Brasileira de Letras e um dos mais importantes romancistas do país.
  Um profissional de publicidade embarca, a trabalho, num cruzeiro pelo Mediterrâneo. Não gosta do que encontra à sua volta, despreza os passageiros e a rotina a bordo extremamente banais e monótonos. Na véspera do término da viagem, inicia uma perseguição silenciosa a uma jovem calada e solitária, 30 anos mais moça do que ele.
  Repara nela por acaso e não mais se liberta do enigma que é mais dele do que dela. Quando a moça desembarca em Nápoles, na penúltima escala da viagem, o homem espera que ela olhe para trás. Frustrado, sofre o fim do que ainda não houve. Mas uma longa e inexplicável história ainda está para ser cumprida entre os dois. Estranhamente, ela pede que o homem a leve para sempre, precisa de alguém que lhe conte "a história do mundo". Visitam as ruínas de Pompéia e o homem a apresenta à Casa do Poeta Trágico, em cujo pórtico há o mosaico de um cão com o aviso: "Cave canem". Cuidado com o cão da paixão e do desejo.


Opinião:
  Vamos ignorar o fato da ilustração da capa não ser das mais decentes...
  Enfim, a forma que este livro chegou às minhas mãos é parecida com a forma que o Quase Memória também chegou... Eu o encontrei na biblioteca da cidade que moro, e propus uma troca de 15 livros por um... o resto é previsível.
  Aqui conhecemos Augusto, um repórter que está em um cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo à trabalho, já no final da viagem ele repara em uma moça, muito jovem e bonita, e começa a meio que persegui-la no navio, observando os passos dela, os lugares que costuma ir e as pessoas com quem costuma conversar, quando ela desce do navio em Nápoles e ele precisa seguir viagem ele faz planos para, terminado o trabalho, voltar à Nápoles para encontrá-la.
  Quando finalmente à encontra acontece uma conversa bizarra que já nos faz saber um pouco sobre o tipo de pessoa que é Augusto:


  A partir de então ela será Mona. E logo lhe pede para que lhe conte a história do mundo, eles começam a sair juntos, ela lhe conta a história da sua vida e em uma viagem às ruínas de Pompéia ela apresenta a ela a Casa do Poeta Trágico, com seu cão negro na entrada com a inscrição "Cave Canem" frase que vai assombrá-los pelo resto do livro, adquirindo um novo sentido sempre que surge na história, ao invés de irem embora com o final da visitação eles resolvem se esconder e passar a noite em Pompéia, e ali começa, realmente, o romance dos dois (ele com 46 e ela com 16 anos de idade).
  Ele a tira da casa dos tios e a leva embora, casa-se com ela e vivem juntos por vários anos, mas em um determinado momento eles se separam, alguns anos depois ele, já idoso, lhe manda uma carta a respeito do apartamento dela que ainda tem as contas pagas por ele, ela então vai até a casa dele e é aí que o presente se passa.
  Uma coisa recorrente nas histórias do Cony é, sem dúvida, a questão da memória, do passar do tempo. Nesse livro não é diferente, o casal vai se lembrar do tempo que passaram juntos, revivendo lembranças, sentimentos e ressentimentos.
  É uma história muito bacana de acompanhar, onde vemos o amadurecimento dos personagens, vemos como o tempo não espera por ninguém e que nos desgasta a todos. A narrativa do livro é muito bonita, mesmo com a necessidade que Augusto tem de provar quão eloquente é a todo momento. É interessante ver também a forma que a empregada de Augusto se comporta em relação à antiga dona da casa.
  Ele é o livro mais alguma coisa do autor... mas não sei dizer que coisa é essa, ele tem algo de especial... uma carga dramática diferente, uma sensação de arrependimento latente... mas não sei dizer o que faz com que esse livro se sobressaia dentre os outros do autor, não é meu favorito (acho difícil que algum supere o Quase Memória, tido por unanimidade, praticamente, como a sua obra prima), mas sem dúvida é um livro que desperta um forte sentimento de carinho no leitor, mesmo que seus personagens não façam o mesmo, é estranho, eu sei, mas não sei explicar.


terça-feira, 14 de abril de 2020

[Opinião] Matéria de Memória - Carlos Heitor Cony #267

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Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 200

Quote:
"Estou só. Preso e só. Selma pode chegar, o avião pode explodir ao descer, ela pode explodir ou querer vir esta noite aqui e ser minha. Nada disso importa. Estou só, preso e livre, estranhamente livre, imensamente livre e onipotente em minha prisioneira liberdade."

Sinopse:
 Tino, Selma e João dão seus depoimentos sobre suas vidas amorosas. Cada personagem narra os mesmos episódios sob seu ponto de vista, deixando para o leitor a tarefa de montar o quebra-cabeça deste surpreendente romance sobre os desencontros do amor. Lançado originalmente em 1962, Matéria de memória é um romance em que se cruzam várias histórias de amor. Vividas como se a vida estivesse por um fio, são protagonizadas por personagens comuns, pelo tanto que estão sujeitos ao medo, à culpa e à dor. Mas são também personagens incomuns, pelo poder que têm de dar ao sofrimento a forma de uma segunda pele, de guardá-lo como se corpo e memória fossem uma única e mesma coisa. Do coração assustado de um menino que conhece o sexo no internato ao coração experiente de uma mulher madura que não conheceu o amor, tudo é concreto neste romance de Carlos Heitor Cony. Seus personagens, pura matéria, parecem ter sido feitos para durar em nossa memória.

Opinião:
  Para consolidar a minha fascinação por este autor temos este livro, que eu colocaria em terceiro na minha lista de favoritos dele. É um livro onde absolutamente todos os personagens são detestáveis. O autor divide a narração em três protagonistas: Tino, um pintor de relativo sucesso, viúvo e secretamente apaixonado pela mãe de sua falecida esposa, que é também a segunda narradora do livro, também secretamente apaixonada pelo marido da falecida filha, e João, filho de Selma e cunhado de Tino, o único, além da irmã, que percebeu o amor secreto entre Tino e Selma, coisa que nem os próprios apaixonados perceberam, mas é o único mérito que João tem no quesito inteligência, ele é o perfeito esteriótipo de babaca lesado, é odiado por absolutamente todo mundo, e apesar de dizer isso com um pouco de pena, ele bem que merece.
  Começamos o livro com Tino contando sua história, falando do quanto ele ama a mãe da falecida esposa desde a primeira vez que a viu mas ao mesmo tempo ele sente um ódio desmedido por ela, na verdade ele não ama coisa nenhuma, ele tem um atração sexual bem selvagem por ela, isso sim. Tino recebe um telegrama de Selma no qual ela avisa que está retornando ao Brasil e informa o horário previsto para o pouso de seu avião, e ele começa uma briga interna para decidir se irá ou não esperá-la no aeroporto, nessa briga acompanhamos a vida dele, a tentativa de suicídio durante o velório da mãe e a forma como abuso infantil era considerado uma brincadeira, praticamente, entre o bando de doentes mentais que compunham o seu circulo social quando criança.
  Selma, apesar de não ser mais tão jovem tem toda a beleza de uma estrela de cinema e chama atenção de todos a sua volta, é então abordada no avião por um homem, com o mesmo nome de seu falecido marido, que a pede em casamento, a situação é tão bizarra que se torna cômica, enquanto Selma voa em direção ao Brasil sua mente voa para o passado e vemos a sua versão da história do casamento de Tino e Julinha, além do que transcorreu na sua vida nesse tempo.
  João começa como narrador quando já está no aeroporto esperando a sua mão, que ele despreza quase tanto quanto ela a ele, tudo parece certo, até que uma aeromoça se aproxima. A parte narrada por João consegue ser a mais engraçada das três, mesmo que a vontade de espancar ele apareça a cada página.
  É um livro extremamente envolvente, que mostra diferentes naturezas do ser humano, ao mesmo tempo que trata sobre sentimentos, arrependimento e traumas, onde cada personagem tem apenas uma parte das respostas e que se agarram ao sofrimento imposto pela ignorância do panorama total. Com certeza é um livro que merece ser lido, onde o autor transmite toda a habilidade dele, com personagens complexados e imprevisíveis, onde ficamos imaginando o que eles realmente sentem, e mesmo que acompanhemos os pensamentos de cada um dos três protagonistas não conseguimos parar de imaginar e tentar descobrir o que se passa na cabeça deles.


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

[Marca Texto] Matéria de Memória - Carlos Heitor Cony

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  Vamos tirar um pouco o atraso dos Marca textos, hehe. Dessa vez trago uma reflexão que tive durante um trecho desse livro, vocês já devem ter percebido que Cony está galgando para a minha lista de autores favoritos, certo? Pois é...






"Se meus amigos soubessem  do que sou capaz, do que fui capaz - ninguém me estenderia a mão. Mas estendem a mão ainda, um pouco de respeito, de ironia, mas estendem a mão, podem me desprezar por outros motivos, mas ignoram do que fui capaz."







    Esse trecho, nesse livro bem escrito e com personagens tão detestáveis, me fez pensar naquela frase dita por Spurgeon: "Quando alguém falar mal de você não fique chateado, você é bem pior do que eles imaginam". Também lembrei da frase dita por uma personagem do seriado SAFE: "Eu descobri [...] que ninguém conhece ninguém de verdade."
  Além disso, me fez pensar em algo que essas três frases têm em comum: elas mostram que não temos como saber tudo sobre alguém, é difícil saber tudo sobre nós mesmos, imagina sobre os outros. A contagem de esqueletos em armários supera a capacidade de qualquer instituto de estatísticas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

[Opinião] Quase Memória - Carlos Heitor Cony #249

https://www.skoob.com.br/quase-memoria-711117ed712561.html
Editora: Nova Fronteira (Edição exclusiva TAG: Experiências Literárias)

Nº de Páginas: 269

Quote:

"Prefiro mergulhar na lembrança dele, em tudo o que foi e quis ser. É fórmula covarde para fugir. Diante da memória, sou mais cúmplice do que testemunha."

Sinopse:
  Quase Memória explora o território situado entre a memória e a ficção a partir de um punhado de recordações do narrador-autor. Nelas, a figura de Ernesto Cony, seu pai, é o centro e a motivação para o exercício das lembranças que, constantemente, adquirem contornos do imaginário. Nostalgia, cumplicidade, vergonha, saudade: os mais diversos sentimentos despertados pelo recebimento de um misterioso pacote sem remetente.
  Publicado em 1995, Quase memória marcou a volta de Carlos Heitor Cony aos romances, após um hiato de mais de vinte anos. O livro recebeu importantes prêmios literários no Brasil e, mais do que isso, conquistou o coração de milhares de leitores desde seu lançamento.

Opinião:
  Já vamos deixar uma coisa clara aqui, tanto esse quanto o livro da próxima postagem com toda a certeza vão aparecer na lista de melhores do ano, que inclusive, terá muitas menções honrosas.
  Esse livro marca o retorno de Cony aos romances, depois de um hiato de cerca de 20 anos, e ele retorna com esse que é um livro até difícil de definir a que estilo narrativo pertence.
"Uma quase memória, ou um quase romance, uma quase biografia. Um quase quase que nunca se materializa em coisa real como esse embrulho, que me foi enviado tão estranhamente. E, apesar de tudo, tão inevitavelmente."
"Desde que voltei do almoço não saí daqui, desta sala, desta mesa, deste embrulho no qual não mais toquei. Nem precisava: basta olhá-lo. Se me metesse a escrever um livro sobre o que está acontecendo, alguém acharia nesse embrulho, vindo brutal e inesperadamente do passado, uma referência, associação ou plágio da madeleine de Proust - e aí me cobrariam um romance. E como não há romance, além da pretensão, contatariam o meu fracasso."
  Aqui o Cony (que deu um salto gigantesco para o posto de autor favorito, coisa que ainda será confirmada, depois de eu ler mais livros dele) se coloca como um personagem para poder contar a história da vida de seu pai. E ele faz isso da seguinte forma:
  Cony está almoçando no restaurante de um hotel no qual jamais se hospedou, mas que vai com alguma frequência almoçar, de uma a três vezes por semana, então um funcionário o entrega um embrulho endereçado à ele, ele imagina se tratar de um manuscrito que algum autor iniciante quer que ele leia, mas aí ele percebe que o embrulho não possui remetente, mas o mistério de quem o mandou logo é desvendado pois além do familiar cheiro de manga e brilhantina o embrulho possui características que inculcam nele a certeza de que o tal embrulho foi mandado pelo seu pai... que morreu há dez anos.
  A partir daí mergulhamos em lembranças narradas de uma forma envolvente e emocionante, onde o autor vai mostrar a saudade que sente do pai sem falar em momento algum a palavra em si.
  Essa edição da TAG é linda e traz na capa a imagem de uma manga, fazendo referência a um dos momentos mais hilários do livro, além de trazer uma pequena introdução exclusiva escrita e assinada pelo próprio autor (o livro foi enviado pelo clube em Setembro de 2017, Cony, infelizmente, nos deixou em Janeiro de 2018, aos 91 anos) então eu considero a assinatura dele como um autógrafo u.u
  Apesar de ser uma edição especial, com muita coisa que a torna especial, incluindo a luva que imita o embrulho da história, acho a capa da edição lançada pela Alfaguara (essa à direita) muito mais bonita, e também faz referência a outro belo momento da história.
  Sei que teve um filme baseado nesse livro mas ainda não tive coragem de assistí-lo. O livro faz com que a gente reveja nossa realação com nosso pai, Ernesto Cony não era uma pessoa isenta de defeitos, mas o autor mostra que depois que um pai se vai a saudade é tanta que até os defeitos dele deixam saudade.
  Um livro para acalentar seu coração, ao mesmo tempo em que te faz chorar e rir.
  Há três passagens que gostaria de frisar, para que você lembre de mim quando ler, hehe
1° - A passagem das mangas no cemitério
2° - A passagem do balão (desde a montagem até a intervenção da polícia)
3° - A passagem onde Ernesto fica responsável pelo jornal enquanto os patrões vão para Minas Gerais convencer o governador a concorrer para presidente, passagem essa que eu me revezava rolando de rir, morrendo de indignação e agonizando de vergonha alheia.
  Enfim (acharam que não teria "enfim" nessa postagem, né!), é um livro fenomenal, que vai te divertir, entreter, te fazer refletir além de te dar um belo choque de realidade, entrou fácil para a lista de favoritos da vida.

https://www.skoob.com.br/autor/714-carlos-heitor-cony

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

[Opinião] A Noite do Massacre - Carlos Heitor Cony #224

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Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 132

Quote:

Os bandidos haviam colocado apenas uma mesa para reforçar a porta. Se ele tivesse tentado arrombar, bastava duas ou três investidas e estariam livres. A prisão fora mais simbólica do que real. No fundo, todos se consideravam presos. Os obstáculos colocados pelos bandidos eram frágeis, alegóricos. A prisão estivera dentro deles mesmos."

Sinopse:
   Em ritmo vertiginoso, este thriller de Carlos Heitor Cony retrata diferentes personagens que têm suas vidas transformadas por um violento incidente.
  Marcelo e Sílvia Caseli são um casal da alta sociedade paulistana. Por trás da aparente felicidade, sustentam uma relação de hipocrisias e intrigas. O sufocante equilíbrio que eles mantém, no entanto, começa a ruir quando o grupo liderado por João Sereno, bandido intelectualizado, arquiteta um assalto a sua residência.
  A Noite do Massacre é a mais impactante narrativa de Carlos Heitor Cony. O autor disseca, com a genialidade que o consagrou como um dos grandes como um dos grandes escritores brasileiros da atualidade, as relações pessoais nas grandes cidades e sua fragilidade em meio à violência urbana.

Opinião:
  Pra variar, vou começar falando de como esse livro chegou às minhas mãos. Eu tinha um crédito sobrando no Skoob, mas não sabia que livro pegar, e como gosto muito do catálogo da Alfaguara, pelo menos do que conheço, então coloquei o nome da editora (do selo, na verdade, mas enfim) no campo de busca e entre outros apareceu esse, resolvi solicitar ele, então fiquei muito tempo com ele na estante sem pegar para ler, até achei engraçado a última parte da sinopse que diz que o autor é consagrado como um grande autor no Brasil... e eu nunca tinha ouvido falar dele.
  Em setembro de 2017 a TAG enviou aos associados outro livro do autor, o Quase Memória, quero ler esse ainda, mas decidi conhecer o autor através deste, e apesar dos pesares eu gostei, não tinha intenção de fazer esse post hoje, faz uns dias que estou tentando postar sobre Os Meninos da Rua Paulo, mas estou começando a achar que não sou capaz de opinar sobre aquele livro... Decidi falar desse livro hoje porque acabei de descobrir que o autor faleceu no último dia 5, aos 91 anos de idade, e falar desse livro é minha singela homenagem à ele.
  Sobre o que trata esse livro: Conhecemos a família Casali Marcelo é um grande empresário com um portfólio milionário, e Silvia é uma mulher estressada e problemática.
  Em uma noite a casa da família é invadida por criminosos que exigem um milhão de cruzeiros (o livro foi escrito em 1975). Marcelo negocia sozinho com o líder da quadrilha, com muito sangue frio e tranquilidade ele diz que praticamente todo o dinheiro que ele tem é em forma de ações e títulos de propriedade, possui muito pouco em dinheiro vivo, bem menos do que a quantia exigida, entre pessoas aparecendo de forma inesperada e membros da família acordando, tudo começa a dar errado.
  A história é um ótimo exemplo da Lei de Murphy, a parte podre do ser humano é explorada em toda a sua extensão, o autor usa situações para nos revoltar e criar empatia pelos personagens, mostra como o mesmo evento atinge pessoas diferentes de modos diferentes, e nunca sabemos exatamente como isso acontecerá.
  Com cenas fortes, de revirar o estômago, a narrativa se passa rapidamente narrando uma noite de terror que apesar de não terminar tão mal quanto poderia nos deixa com um pequena esperança, vendo o quão real é a história e como coisas como as narradas acontecem todos os dias ao redor do mundo.
  A narrativa do autor é envolvente e levamos poucas horas para concluir a leitura, o que me deixou empolgado para ler outras obras do autor, porque a escrita, mesmo não tendo grande beleza é fluida e envolvente, a história, como disse, não é a melhor coisa do mundo, mas é realista e desperta vários questionamentos sobre o comportamento e fragilidade humana.
  Na nota do autor presente nessa edição, ele fala que o livro foi concebido como o roteiro de um filme e depois ele lançou como livro, o filme, lançado com o nome de Paranoia, foi lançado também em 75.



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