Mostrando postagens com marcador Will Self. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Will Self. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de fevereiro de 2026

[Opinião] Como Vivem os Mortos - Will Self #567

Compre pela Amazon 

"Não. Não - isso está além das minhas forças. Aconteceu. Fui enterrada viva no caixão devorador de carne do meu próprio corpo."

  Uma coisa que acho que repetirei em todos os comentários sobre algum livro deste autor é: uma das narrativas mais visuais que já li... 
  Aqui conhecemos Lilly Bloom... uma senhora boca suja e rabugenta,não é tão velha, mas desenvolveu um câncer fulminante que a está matando rapidamente. Mas quando já não resta opção uma das filhas a leva para sua casa, para ficar em um lugar, supostamente, mais acolhedor do que o ambiente estéril do hospital... apenas supostamente...
  As filhas de Lilly são dois opostos, uma super certinha e outra da pá virada, viciada e que vive na sarjeta... estranhamente Lilly tem uma devoção pela filha que é um caso perdido enquanto demonstra desprezo pela filha mais bem-sucedida.
  Mas isso é só o início da história... depois que Lilly perde a batalha contra o câncer vamos acompanhá-la no seu pós vida, uma mitologia muito diferente de tudo que já ouvimos falar... ela é recepcionada por um aborígene australiano morto que será seu guia, mesmo que não explique todos os pormenores... inclusive muita coisa não será explicada em momento nenhum do livro. Você só aceita e prossegue.
  Muitos anos se passam depois da morte de Lilly, e acompanhamos seu pós vida enquanto também acompanhamos a vida das suas filhas, quando Lilly as visita...
  É um livro sobre vida e morte de sua forma mais crua... mesmo depois de morta Lilly continua presa a uma rotina maçante e repetitiva, ainda tem uma casa para cuidar e trabalho a fazer, se olharmos bem, não tem muita diferença entre ela e uma viva... a não ser o fato de estar acompanhada sempre de um litopédio, um feto calcificado, fruto de um aborto espontâneo que teve em vida... esse personagem é uma figura, vive cantando sucessos antigos. Bem diferente de um outro filho falecido de Lilly que vai aparecer depois, e ela vai chamá-lo de Rude Boy, um apelido muito propício, diga-se de passagem... ele pode funcionar como um alívio cômico, pra quem achar graça de criança mal educada, que dá dedo até pro vendo, xinga até o sol e abaixa as causas pra mostrar o traseiro até para o papa.
  O mundo dos mortos e dos vivos coexistem sobrepostos, não há uma separação clara e nem é explicada, algumas vezes o mundo dos mortos "vaza" para o dos vivos e os vivos podem vê-los, isso pode causar alguma confusão, mas na maioria das vezes os vivos nem percebem que se trata de um morto. Os mortos tem corpo sutis (para usar as palavras do livro), e isso significa que eles não podem tocar nas coisas... em certa medida,,, já que eles ainda trabalham (o guia aborígene de Lilly, por exemplo, é dono de uma rede de restaurantes, frequentada por vivos e mortos... um negócio que fundou depois da morte) e mesmo que não precisem e nem possam comer, eles fazer refeições que figuem comer... muito mais pelo costume e prazer de comer algo (mesmo sem o prazer de que isso seja real) do que por real necessidade.
  É um livro por vezes cômico, que mostra que uma vida estagnada não é muito diferente da morte, que mesmo com perdas trágicas a vida continua, que quem amamos terão conquistas que não poderemos acompanhar.
  Não é um livro de leitura acelerada e nem com muita ação, é um livro para ser desfrutado lentamente, já que a escrita emula o tédio da morte que Lilly sente, recheado de referências literárias. Um livro para o qual eu tinha grandes expectativas, e não me decepcionou.


É um autor, jornalista, comentarista político e personalidade de televisão inglês. É autor de onze romances, cinco coleções de contos, três novelas e cinco coleções de obras de não-ficção.
Seu romance de 2002, Dorian, an Imitation, foi listado para o Prêmio Men Booker, e seu romance de 2012, Umbrella, foi selecionado. Sua ficção é conhecida por ser satírica, grotesca e fantástica, e é predominantemente ambientada em sua cidade natal, Londres. Seus escritos frequentemente exploram doenças mentais, abuso de drogas e psiquiatria.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

[Opinião] O Self Essencial - Will Self #530

 Compre pela Amazon

Editora: Alfaguara

N° de Páginas: 291

Quote:
"Ele literalmente copia os sintomas de todo tipo de doença mental, pelo menos das que exibem alguma espécie de patologia definida: esquizofrenia, depressão crônica, hipermania, psicose depressiva. O problemas com as imitações de Tom, ou devo dizer as imitações de sua enfermidade, é que são atuações ruins. Tom reitera cuidadosamente cada detalhe registrado de um comportamento aberrante, mas com uma singular falta de convicção; é uma performance artificial e pouco convincente. Seu pai teria achado fascinante de ver."

Opinião:
  Will Self é um autor que despertou minha curiosidade já faz alguns anos, tentei um primeiro contato através da obra intitulada O Livro de Dave, do qual falarei sobre em algum momento... quando eu ler o livro, pois fiquei muito perdido na primeira tentativa e acabei deixando de lado, e resolvi ter um primeiro contato real com o autor lendo seus contos, que, segundo o que diz na sinopse desse livro, é a área de expertise do cara.
  Aqui, como bem explicado na capa, temos cinco contos e uma novela do autor, vou falar rapidamente sobre cada uma dessas histórias daqui a pouco.
  A escrita do autor é uma das mais imersivas que já li na minha vida, a forma como ele consegue transportar o leitor para o mundo que ele cria com as palavras é surpreendente, e faz isso parecer fácil, pois em poucas palavras ele torna tudo muito visível e experimentável. Ele não mede muito as palavras e não é lá muito polido, mas conduz uma narrativa como poucos que já li nessa minha vida de leitor. Passeando entre vários assuntos e com lições sutis, às vezes nem tanto, a cada história e personagem apresetado.
  O primeiro conto se chama A Pedra de Crack Grande que nem o Ritz. Que vai falar de dois irmão que deixam a vida de traficantes... pero no mucho... Um deles até que sim, vai pro exército, vira um cidadão descente e exemplar, mas o outro continua no mundo das drogas, mais como usuário do que como traficante, mas não por muito tempo. Em uma reforma no porão, Danny (o irmão redimido) acaba derrubando uma parede e encontrando uma substância muito estranha atrás dela, ele logo percebe que é uma pedra de crack de cocaína, é uma pedra gigantesca, uma verdadeira jazida natural... o que não faz sentido, eu sei, o autor, muito provavelmente também sabe, mas aqui entra a suspensão da descrença. Por curiosidade, depois de ler isso fui pesquisar de onde vinha o crack, e é basicamente um derivado ou subproduto da cocaína, que é feita a partir do refinamento das folhas de coca, depois que não sobra quase nada das fibras da folha só o muco/extrato essa substância é decomposta (sim, decomposta) com ácido sulfúrico ou gasolina, daí surge a droga... depois de saber disso ficou ainda mais incompreensível, para mim, como tem gente que tem coragem de consumir esse negócio. Enfim, agora que eles têm esse estoque infinito, irreal e ilógico da droga eles podem ganhar rios de dinheiro, e é isso que vão fazer... pelo menos no início.
  O segundo conto se chama Ala 9, nosso protagonista é um especialista em arte terapia que vai trabalhar na ala psiquiátrica de um grande hospital, a tal ala 9. O pai do nosso protagonista também já havia trabalhado ali e é conhecido do pessoal do hospital, como fica claro no trecho que destaquei no começo da postagem. Ali o protagonista será apresentado a vários e vários pacientes ali internados, cada um mais... peculiar, na falta de termo melhor, do que o outro... as apresentações vão se desenrolando, enquanto vemos o protagonista se ver cada vez menos convicto de sua sanidade, afinal a forma dos "loucos" verem a vida parece fazer cada vez mais sentido, ao menos para ele, até que surge o questionamento: quem é que está doente? Quem vive a sua vida, no seu mundo particular e sem incomodar ninguém, nem ser incomodado pelos problemas que estão fora de suas forças, ou quem passa a vida correndo pra cima e pra baixo querendo abraçar o mundo enquanto esquece de abraçar as pessoas próximas pois não lhes sobra tempo?
  Brinquedos Duros na Quebra Para Garotos Duros na Queda é o terceiro conto, não foi dos meus favoritos, e pra essa postagem não ficar muito grande vou falar só do que foi o meu conto favorito e os demais apenas nomear. O quarto conto é bastante interessante, se chama Compreendendo os Ur-Bororos, sobre um antropólogo que passou anos entre os nativos dessa tribo fictícia, e em uma visita a um antigo amigo vai contar suas experiências.
  A Volta dos Cinco Balanços foi meu conto favorito, começa com uma cena angustiante de acidente, com nosso protagonista se levantando depois de ser atropelado e vendo o corpo sem vida do seu filho no meio fio, nosso alívio é descobrir que isso é apenas um sonho do protagonista. Que ao acordar pega sua bebezinha e vai até a casa da ex-esposa buscar a penca de filhos que teve com ela para passarem o dia juntos, evamos acompanhar esse dia, sempre com o fantasma do pesadelo à espreita, lá no fundo dos pensamentos do protagonista. É um conto tenso e, em vários momentos, angustiante.
  A novela se chama Leberknödel, que é uma palavra alemã para bife de fígado, esse foi um caso que acho que poderia te sido mais curta, não tive essa sensação nas outras histórias, até porque eram mais curtas, mas enfim... aqui vamos acompanhar uma paciente terminal que viaja até Zurique planejando um suicídio assistido, mas ela vai encontrar é outra coisa nessa viagem... é uma história interessante, tem seus problemas mas também nos faz refletir, ficaria ali no meio termo, boa o suficiente, mas não mais que isso. De uma forma geral, o saldo do livro foi muito mais positivo do que negativo, me deixou curioso para ler os romances do autor que têm umas premissas muito intrigantes, pretendo encarar um deles ainda esse ano, o autor entrou fácil na minha lista de interesses/prioridades, tanto por sua imaginação bem incomum quanto pela sua maestria na escrita.




William Woodard "Will Self" (nascido em 26 de setembro de 1961) é um escritor Inglês, crítico e colunista. Ele é conhecido por sua sátira grotesca, romances fantásticos e contos.




 


Talvez você goste de:



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...