sábado, 18 de abril de 2026

[Opinião] Canção de Ninar - Leila Slimani #570

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"Desde que nasceram, ela tem medo de tudo. Tem, acima de qualquer coisa, medo de que eles morram. Nunca fala disso, nem aos amigos nem a Paul, mas está certa de que todos pensam o mesmo. Tem certeza de que, assim como ela, já aconteceu de se perguntarem, enquanto olham para os filhos dormindo, o que sentiriam se aquele corpo fosse um cadáver, se seus olhos fechados ficassem assim para sempre."

  Há muito tempo ouvia falar sobre este livro, há muito tempo tinha vontade de lê-lo e há muito tempo o tinha na minha estante... então enfim criei vergonha para pegar para ler, e quase nem me tomou tempo.
  Logo de cara a autora já nos conta que "O bebê está morto", o que nos deixa curiosos pra saber como isso aconteceu... Dificilmente alguém chega a esse livro sem saber um pouco da sua premissa, então essa frase inicial não é bem uma surpresa por si, é uma surpresa maior saber que isso já é jogado na cara do leitor antes de a gente sequer saber que existia um bebê.
  Aqui conhecemos Myriam, uma advogada que largou o emprego pra se dedicar ao cuidado de seus dois filhos pequenos, mas ela já não quer isso, então conversando com o marido eles decidem contratar uma babá para tomar conta das crianças e assim Myriam poderia retornar ao trabalho.
   Demoram um pouco para conseguir encontrar uma babá que desperte a confiança necessária para o trabalho e se encaixe nos requisitos que o casal, e Myriam, em especial, procurava... Até que surge Louise... uma mulher um pouco mais velha que Myriam, que já tem experiência e excelentes referências de seus antigos empregadores... 
  Louise logo se mostra uma babá muito melhor do que o esperado... ela não se limita às suas funções de babá, ela estende a sua competência para o restante da casa, fazendo também às vezes de faxineira e cozinheira. Faz tudo com excelência, as crianças a adoram e o mundo parece perfeito e com um agradável cheiro de petricor...
  Mas por trás de toda essa excelência de Louise há um ser humano real, que por mais boa que tente ser, é assombrada não apenas por erros do passado, mas por um relacionamento complicado com a própria filha e um casamento em frangalhos que só faz mal a ela.
  É um livro de narrativa simples, mesmo que brinque com a linha cronológica durante toda a história, o leitor consegue acompanhar bem o fio da meada e identificar o que é presente, passado e imaginação... pelo menos na maior parte do tempo.
  A tensão é crescente, vamos vendo pequenas rachaduras na armadura de perfeição que Louise tenta manter, ao mesmo tempo que vemos Myriam cada vez mais distante dos filhos. A ponto de negligenciar sua responsabilidade enquanto mãe, exatamente como seu marido faz como pai.
  Um livro que mostra que erros são cometidos, que egoísmo pode ser um sentimento extremamente perigoso, e que a confiança pode custar muito caro.
  O livro é levemente baseado numa história real ocorrida em Nova York em 2012... o livro também trata, muito brevemente, a questão da imigração.
 

Leïla Slimani (1981) é uma escritora e jornalista franco-marroquina. Ela também é diplomata francesa, na qualidade de representante pessoal do presidente francês Emmanuel Macron na Organização Internacional da Francofonia. Nasceu em Rabat, no Marrocos e vive desde os 17 anos em Paris. Publicou seu primeiro romance em 2014. Seu segundo livro, publicado no Brasil como Canção de Ninar, venceu em 2016 o Prêmio Goncourt.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

[Opinião] A Biblioteca do Censor de Livros - Bothayna Al-Essa #569

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"Era o pior que poderia acontecer, de fato. Ele não conseguia imaginar uma situação mais desastrosa, embora fosse proibido imaginar. Não podia impedir a si mesmo de pensar em sua filha passeando pelos corredores do prédio da Autoridade de Censura, como um personagem que escapara de um livro ilustrado. Ela era a mistura de todas as personagens imaginárias, e ele nunca entendeu de onde ela conhecia todas aquelas histórias. Histórias que nunca contou a ela e das quais não se lembrava muito bem, embora, de modo misterioso, lhe fossem familiares."
   Será que lembro como é fazer isso??
  Aqui temos um livro com um gostinho de fábula, uma daquelas histórias onde ninguém tem nome próprio, é todo mundo chamado pela sua definição predominante: O Censor, o Presidente, a Filha, a Livreira...
  Começamos a história com nosso protagonista iniciando sua carreira como censor de livros, ele trabalha na Autoridade, um setor do governo responsável por proibir os livros com qualquer alusão ao governo, a Deus, a sexo e a qualquer outra coisa que possa colocar em xeque o controle do Estado sobre o povo.
  Como os censores fazem parte do povo que deve ser controlado pelo sistema, a principal regra que eles devem seguir é que não podem interpretar nada do que leem, e por causa disso logo eles nem tem mais qualquer capacidade interpretativa mesmo (qualquer semelhança com o mundo atual seria mera coincidência?).
  Mas como nosso protagonista é um novato, ele recebe apenas alguns livros bem tranquilos, com nada que poderia estimular o pensamento e colocar o sistema em risco caso abrisse os olhos de seu povo. Aos poucos ele começa a ansiar por um trabalho mais desafiador, ele quer um livro onde ele possa encontrar o que proibir... ao mesmo tempo que ouve histórias sobre um velho censor, agora conhecido apenas como Secretário, que dizem ter ficado louco pois cometeu o erro de interpretar o que lia.
  Como qualquer um que leu isso até aqui é capaz de supor, o protagonista vai conseguir um livro mais... problemático, na concepção da Autoridade, para trabalhar, e este livro será o estopim de sua mudança. O livro em questão é Zorbás, o Grego (Ou A Vida e Aventuras de Aléxis Zorbás) de Nikos Kazantzákis.
  Todo o livro é repleto de alusões e referências a outras obras consagradas da literatura, a principal dela claramente é Farenheit 451, da Ray Bradbury, no que se refere à premissa de livros proibidos e tudo o mais... inclusive este livro é uma prova de como a mais famosa obra de Bradbury poderia sim ser muito melhor do que realmente é. Mas as referências não param por aí, temos claras referências a Zafón e sua tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos e também a Alice no País das Maravilhas.
  Já que mencionamos Alice, vamos falar do vasto mundo de histórias infantis que povoam o imaginário da filha do nosso protagonista... a Filha é uma criança inteligente, imaginativa e bastante criativa... o que é visto com péssimos olhos nesta sociedade... uma vez que imaginação estimula a criatividade, e esta faz com que as pessoas inventem, prosperem, se sobressaiam... coisa inaceitável para um governo que impõe uma igualdade forçada... que como toda igualdade institucionalmente imposta, só pode se elevar até o ponto mais confortável do membro mais pífio de sua sociedade.
  Como a imaginação é vista com maus olhos, uma das partes mais interessantes do livro é como o Estado lida com a imaginação natural das crianças, tratando-a como uma doença que deve ser extirpada... e todo o drama do personagem e de sua Esposa com essa situação... ainda mais considerando que mesmo que acompanhemos a libertação do protagonista das garras ideológicas e ilusórias do governo, sua esposa não está trilhando o mesmo caminho que ele....
  A trama vai se encaminhar para uma espécie de conspiração de resgate à cultura e à liberdade, mas essa parte vou deixar que descubram por completo quando forem ler o livro... e espero de verdade que o façam, facilmente um dos melhores que li neste ano, até o momento.
  Além de todas as referências a outras obras e ao tom de fábula que comentei anteriormente, o livro tem vários subtextos, coisas que você lê e se pega pensando no que podem significar entre o que está e não está escrito.... um exemplo disso é o fato de o prédio da Autoridade ser infestado de coelhos... uma clara referência ao Coelho Branco de Alice... mas será que realmente é só isso? Será que o fato de serem alimentados, e de quem é a personagem que os alimenta não quer dizer algo mais, trazer uma espécie de mensagem velada? Será que estou só teorizando coisas que não querem dizer nada e só estão no livro porque a autora quis colocar, mesmo que não tenham um significado? É possível, é até bem provável...
  Pra finalizar reforço aqui a recomendação de um dos melhores livros que já li, que mostra um excelente domínio e conhecimento por parte da autora, que mesmo tendo seus eventos um pouco atropelados, devido ao número reduzido de páginas (apenas 220) consegue cumprir o que pretendia, lançando mão de uma bagagem literária bastante vasta. Acredito ser o primeiro livro que leio de um autor de origem kwaitiana, e posso garantir que foi uma excelente porta de entrada para a literatura deste país.




Bothayna Al-Essa nasceu no Kuwait, em 1982. Fundadora da biblioteca e editora Takween, desde 2014, dedica-se integralmente à escrita e ao trabalho cultural. Publicou mais de dez romances, entre eles Mapas do extravio e A Biblioteca do Censor de Livros. Seus livros foram traduzidos para o inglês, o italiano, o russo, o indonésio e outras línguas. Recebeu prêmios literários no Kuwait e no mundo árabe. Além de sua obra romanesca, publica ensaios e literatura infantil, e ministra oficinas de escrita criativa. A Biblioteca do Censor de Livros, seu primeiro livro publicado no Brasil, ganhou o Prêmio Sharjah de Criatividade Árabe na categoria Romance e foi finalista no National Book Award na categoria Tradução em 2024.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

[Opinião] Beleza Oculta - Lucinda Riley #568

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"Mas eu não sou assim. Eu achava que faria qualquer coisa em troca de uma vida de luxo. Pensava que eu conseguiria aguentar. Mas tudo que eu quero agora é morar em uma casinha em algum lugar, com a minha filha, e ter a liberdade de passear na rua quando quiser."

    Tentarei manter este blog atualizado, a única coisa que tem impedido isso é minha desorganização e procrastinação...

  Já devia estar completando dois anos desde que li um livro de Lucinda Riley pela última vez, e sendo ela uma autora que mais de uma vez já demonstrei interesse em ler toda a obra, isso já estava beirando a hipocrisia.
  Aqui conhecemos logo de cara Leah, uma menina que é um verdadeiro anjo de candura, filha única de um casal pobre, com um pai doente e incapaz de trabalhar e uma mãe preocupada e batalhadora... um dia Doreen, a mãe de Leah, a manda até a casa da velha Megan para levar uns ovos que pegou no galinheiro, uma vez que Doreen sentia pena da velha que vivia sozinha em um velho chalé do vilarejo... Leah vai, mesmo com certo medo, já que as crianças consideram Megan uma bruxa... depois de uma breve conversa, Megan diz que Leah terá uma beleza extraordinária quando for mais velha, e essa beleza toda poderia não ser a bênção que se imagina...
  Depois disso somos apresentados aos demais personagens que serão mais centrais na história da vida de Leah. Rose é uma pintora de renome, que abandonou as artes há vinte anos e se refugiou com seus dois filhos no interior de Yorkshire. Miranda é filha adotiva de Rose, uma... como dizer... piriguete... no alto de seus meros 15 anos ela adora usar maquiagem pesada e roupas provocantes, sempre usando sua sensualidade pra conseguir favores de homens. Miles é o filho biológico de Rose, tem 20 anos e só aí já percebemos que ele pode ter algo a ver com o fato de a mãe ter abandonado a vida de artista e seu desentendimento com o irmão, David, com quem não conversa ou vê há tanto tempo quanto. Doreen é governanta na casa de Rose, e durante as férias ela leva Leah para ajudá-la, a pedido da própria Rose, uma vez que o dinheiro ajudaria na casa e o sobrinho de Rose, Brett, filho de David e que perdeu a mãe recentemente, passará uma temporada com a tia, que até então nem mesmo o conhece.
  Haverá muitos desdobramentos na história até chegarmos ao foco principal da vida de Leah, que é trabalhar como modelo e tudo que esse meio envolve. Nesse trabalho ela conhecerá o glamour e também o pior que uma pessoa pode fazer, sempre acompanhada de sua grande amiga Jenny, uma modelo que a abraçou logo de cara e foi essencial para que Leah se adequasse a nova carreira.
  Jenny é uma das personagens mais interessantes do livro, alguém que apresenta o mundo do estrelato nas passarelas, mas também mostra os piores efeitos que este mundo pode ter sobre alguém... o glamour cobra um preço alto, festas regadas a bebida e drogas, cheio de pessoas querendo um pedaço das super modelos para si mesmos. a pressão constante das agências para que mantenham o corpo perfeito, participem da vida social ao mesmo tempo que se mantenham discretas, sem qualquer apoio psicológico para profissionais que são vistas apenas como produtos.
  Como disse, boa parte da história vai ser nesse meio da moda, que eu, particularmente, acho um porre, mas a autora consegue nos manter interessados pois nesse ponto já nos apegamos bem aos personagens dela. E o livro também vai passear por outras tramas, mesmo que tudo interligado... Miranda é uma das personagens que tem o melhor arco de desenvolvimento... de piriguete libertina para adolescente grávida, irresponsável e vitimista, passa por momentos de terror ao cair numa armadilha estrategicamente desenhada para alguém fútil como ela... uma experiência que a fará ver que o foco de sua vida estava no lugar errado, proporcionando ao leitor momentos de tensão onde finalmente passamos a nutrir alguma simpatia pela personagem.
  O livro ainda vai nos mostrar a infância de David e Rose, na verdade, vai mostrar inclusive como seus pais se conheceram, e o que enfrentaram sendo judeus na Polônia dos anos 1940. As passagens do passado, mostrando os terrores da segunda guerra e quão terrível foi aquilo para a humanidade, não servem apenas como uma simples história de origens, fatos dessa época estão presentes e guiando a vida de David e Rose até os dias atuais da narrativa (que é ali por 1970/80/90). Mais do que traumas, existem ainda assuntos não resolvidos dessa época que guiaram as personagens até a vida que levam hoje, e respingam também em seus filhos que nada sabiam sobre esse passado.
  Além de abordar a maldade humana em sua forma mais cruel, o livro também nos provoca sobre o quanto conhecemos realmente as pessoas que nos cercam... até que ponto há sinceridade em suas falas e ações? Que segredos sombrios estão escondidos por trás da máscara do cotidiano tranquilo? E como saber se o passado não voltará para assombrar e destruir o presente.
  É uma história sobre como as aparências enganam, como as consequências são inevitáveis e sobre os encontros e desencontros da vida... Acho que parte do mistério que envolve o personagem do Miles não convenceu por ser previsível sua solução... inclusive pelos sonhos premonitórios de Leah, mas este seria o único defeito que eu tenho para apontar no livro.


LUCINDA RILEY nasceu na Irlanda e, após uma carreira inicial como atriz de cinema, teatro e televisão, escreveu seu primeiro livro aos 24 anos. Suas obras já foram traduzidas para 37 países, vendendo mais de 30 milhões de exemplares, e continuam a emocionar leitores de todas as culturas no mundo inteiro. Sua série As Sete Irmãs, inspirada na mitologia da famosa constelação, é um fenômeno global, com mais de 15 milhões de exemplares vendidos. Lucinda faleceu em 2021, cercada pela família, em sua casa.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

[Opinião] Como Vivem os Mortos - Will Self #567

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"Não. Não - isso está além das minhas forças. Aconteceu. Fui enterrada viva no caixão devorador de carne do meu próprio corpo."

  Uma coisa que acho que repetirei em todos os comentários sobre algum livro deste autor é: uma das narrativas mais visuais que já li... 
  Aqui conhecemos Lilly Bloom... uma senhora boca suja e rabugenta,não é tão velha, mas desenvolveu um câncer fulminante que a está matando rapidamente. Mas quando já não resta opção uma das filhas a leva para sua casa, para ficar em um lugar, supostamente, mais acolhedor do que o ambiente estéril do hospital... apenas supostamente...
  As filhas de Lilly são dois opostos, uma super certinha e outra da pá virada, viciada e que vive na sarjeta... estranhamente Lilly tem uma devoção pela filha que é um caso perdido enquanto demonstra desprezo pela filha mais bem-sucedida.
  Mas isso é só o início da história... depois que Lilly perde a batalha contra o câncer vamos acompanhá-la no seu pós vida, uma mitologia muito diferente de tudo que já ouvimos falar... ela é recepcionada por um aborígene australiano morto que será seu guia, mesmo que não explique todos os pormenores... inclusive muita coisa não será explicada em momento nenhum do livro. Você só aceita e prossegue.
  Muitos anos se passam depois da morte de Lilly, e acompanhamos seu pós vida enquanto também acompanhamos a vida das suas filhas, quando Lilly as visita...
  É um livro sobre vida e morte de sua forma mais crua... mesmo depois de morta Lilly continua presa a uma rotina maçante e repetitiva, ainda tem uma casa para cuidar e trabalho a fazer, se olharmos bem, não tem muita diferença entre ela e uma viva... a não ser o fato de estar acompanhada sempre de um litopédio, um feto calcificado, fruto de um aborto espontâneo que teve em vida... esse personagem é uma figura, vive cantando sucessos antigos. Bem diferente de um outro filho falecido de Lilly que vai aparecer depois, e ela vai chamá-lo de Rude Boy, um apelido muito propício, diga-se de passagem... ele pode funcionar como um alívio cômico, pra quem achar graça de criança mal educada, que dá dedo até pro vendo, xinga até o sol e abaixa as causas pra mostrar o traseiro até para o papa.
  O mundo dos mortos e dos vivos coexistem sobrepostos, não há uma separação clara e nem é explicada, algumas vezes o mundo dos mortos "vaza" para o dos vivos e os vivos podem vê-los, isso pode causar alguma confusão, mas na maioria das vezes os vivos nem percebem que se trata de um morto. Os mortos tem corpo sutis (para usar as palavras do livro), e isso significa que eles não podem tocar nas coisas... em certa medida,,, já que eles ainda trabalham (o guia aborígene de Lilly, por exemplo, é dono de uma rede de restaurantes, frequentada por vivos e mortos... um negócio que fundou depois da morte) e mesmo que não precisem e nem possam comer, eles fazer refeições que figuem comer... muito mais pelo costume e prazer de comer algo (mesmo sem o prazer de que isso seja real) do que por real necessidade.
  É um livro por vezes cômico, que mostra que uma vida estagnada não é muito diferente da morte, que mesmo com perdas trágicas a vida continua, que quem amamos terão conquistas que não poderemos acompanhar.
  Não é um livro de leitura acelerada e nem com muita ação, é um livro para ser desfrutado lentamente, já que a escrita emula o tédio da morte que Lilly sente, recheado de referências literárias. Um livro para o qual eu tinha grandes expectativas, e não me decepcionou.


É um autor, jornalista, comentarista político e personalidade de televisão inglês. É autor de onze romances, cinco coleções de contos, três novelas e cinco coleções de obras de não-ficção.
Seu romance de 2002, Dorian, an Imitation, foi listado para o Prêmio Men Booker, e seu romance de 2012, Umbrella, foi selecionado. Sua ficção é conhecida por ser satírica, grotesca e fantástica, e é predominantemente ambientada em sua cidade natal, Londres. Seus escritos frequentemente exploram doenças mentais, abuso de drogas e psiquiatria.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

[Opinião] Criança 44 - Tom Rob Smith #566

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"Porque é fácil você ter certeza de que jamais vai roubar, estuprar ou matar, mas ninguém podia ter certeza de não ser acusado de agitação antissoviética, atividades contrarrevolucionárias e espionagem, porque ninguém, inclusive Liev, jamais saberia direito em que consistiam tais crimes."

  Há muitos anos venho ensaiando ler alguma coisa deste autor, mas o que estava no meu radar era um outro livro chamado A Fazenda. Entretanto, já faz algum tempo, passei a acompanhar o canal do Rodrigão1002 no youtube, e ele meio que encabeça uma seita em volta da trilogia que se inicia com este livro.... muito tempo depois, sobrevivendo a várias ameaças de expulsão dos grupos e ser chamado de herege, resolvi ler, enfim, o bendito livro (eu e mais uma galera, diga-se de passagem).
  Aqui conhecemos Liev, um agente soviético especializado em torturar e executar os inimigos do sistema... o bom e velho comunismo em sua verdadeira face,,, até que um dia é encontrada uma criança morta na cidade... Liev já tem trabalho, mas seus superiores o tiram do caso que está acompanhando para dar uma olhada nesse... em especial para contar à família sobre a morte da criança, que o governo considerou um infeliz acidente com o trem. Mas os pais estão convencidos de que se trata de um assassinato. Liev, num primeiro momento, insiste com os pais da vítima para convencê-los do engano, mas logo, todas as convicções do nosso protagonista começarão a ruir.
  Como na URSS ninguém é totalmente confiável, Liev passa por uma prova de sua fidelidade, ou é nisso que acredita, a princípio, quando sua esposa, Raissa, é acusada de ser uma espiã. Este é o verdadeiro estopim da mudança de convicções de Liev. Antes um leal agente do sistema, disposto a torturar e matar quem quer que lhe dissessem se tratar de um inimigo do regime, sempre ignorando os nomes de suas vítimas, já que isso os diminuía a algo inferior a humanos, tornando assim mais fácil a realização de suas funções. Agora Liev duvida de quase tudo, percebe a podridão do sistema ao qual dedicou a vida e passa a buscar por justiça verdadeira e descobrir quem vem matando crianças pela região, crimes estes que o governo nega existirem, já que na sociedade perfeita da URSS não acontecem crimes... e quando acontecem os esforços devem ser para abafar, e não solucionar.
  O livro é muito bem escrito, de forma simples e direta, mas sem deixar de lado certo rebusque na construção do texto, o autor constrói bem personagens e cenários e descreve emoções como poucos são capazes. A trama em si é muito bem elaborada, mas peca um pouco em sua resolução... o livro tem um prefácio que, a princípio, nada tem a ver com a história, servindo apenas para demonstrar a miséria que um povo se encontra. Mas este prefácio retorna para um momento de virada na história... e é ali que se encontra, a meu ver, o principal problema do livro.

Isso dito, abaixo trarei alguns spoilers, então só leia se realmente não se importar com revelações importantes ou se já tiver lido o livro. (Selecione para ler)

  No prólogo vemos dois irmãos tentando pegar um gato para que a família tenha algo para comer, mas ao se separarem um deles é atacado e acreditamos que foi levado pra servir de alimento.
  Liev aparece como alguém muito preocupado e realmente apaixonado pelos pais, o que até contrasta um pouco com sua personalidade impiedosa, ao mesmo tempo que faz sentido, uma vez que ele precisa ter algo para se apoiar (além da esposa que é outro caso complicado, mas neste ponto não vou tocar). Fato é que depois descobrimos que Liev, na verdade, é Pavel.... o menino desaparecido no prólogo do livro... ele realmente foi sequestrado para servir de alimento para o filho do casal que o atacou, mas ao chegar em casa eles encontram o filho morto e desistem de matar Pavel/Liev e ao invés disso usam o corpo do filho como alimento, inclusive para o garoto que estavam planejando cozinhar.... e ele cresce sabendo disso, lembrando disso e convivendo muito bem com isso, obrigado..... sério????? O cara desenvolve um amor (ou síndrome de Estocolmo) tão grande justo pelas pessoas que o tiraram de sua família e pretendiam assassiná-lo? Tudo bem que depois eles o adotaram como filho, mas né?

  Apesar disso é um livro frenético, que representa muito bem como era a vida de pessoas comuns (e outras nem tão comuns) dentro da ilusória ideia de igualdade na URSS, um mistério tenso, com personagens cativantes, que em vários momentos nos envolvem tanto que passamos até a esquecer das atrocidades cometidas. Deixando o leitor empolgado e ansioso pelas continuações, que pretendo encaixar logo.



Filho de mãe sueca e pai Inglês, Smith foi criado em Londres, onde vive hoje. Após graduar-se na Universidade de Cambridge em 2001, ele completou seus estudos na Itália, estudando redação criativa por um ano. Após esses estudos, trabalhou como roteirista. Sua primeira novela, "Criança 44", sobre uma série de assassinatos de crianças na Rússia stalinista, apareceu no início de 2008 e foi traduzido para 17 línguas. Foi premiado em 2008 Ian Fleming Steel Dagger Melhor Thriller do ano pela Associação Crime Writer's. O seguimento de crianças 44, "O Discurso Secreto" foi publicado em abril de 2009.

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