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domingo, 24 de novembro de 2019

[PLMC] As Terras Fajutas - C. S. Lewis



  Esse conto pode ser encontrado no livro A torre negra, lançado pela editora Planeta, mas que esperamos que saia também pela Thomas Nelson em algum momento.




"Minha primeira ideia foi de que havia algo errado com meus olhos. Eu não estava no escuro, nem mesmo no crepúsculo, mas tudo parecia curiosamente embaçado. Havia um tipo de luz do dia, mas, quando eu olhava para cima, não via nada que pudesse chamar confiadamente de céu. Ele poderia, possivelmente, ser o céu de um dia muito sem graça, monótono e cinza, mas carecia de qualquer sugestão de distância. 'Indescritível' era a palavra que eu usaria para descrevê-lo."
  Aqui temos um protagonista que pode muito bem ser o próprio Lewis, ele está em seu escritório na faculdade quando recebe a notícia que um antigo aluno, por quem tem grande estima, vai visita-lo. Ele fica feliz com a visita, só não gosta do fato de ele ter trazido a noiva junto sem avisar ao professor, o que impede-os, na concepção dele, de conversar sobre os assuntos que ambos tem em comum, pois isso deixaria a garota, grosseiramente, fora da conversa, ao mesmo tempo que o casal também não poderia conversar sobre as coisas que supostamente tem em comum pois isso deixaria o professor de fora, mas algo estranho acontece, e o professor então se vê em um mundo meio distorcido, onde quase tudo é meio indistinto e as coisas que parecem ser mais realistas e convidativas parecem ser meio fúteis.
   No decorrer do conto imaginamos as mais diversas possibilidades, mas o narrador, ao voltar para o "mundo real" percebe o que aconteceu e explica, o melhor é que ele fala: "Minha própria hipótese é a óbvia, que terá ocorrido a todos os leitores." Mas eu devo confessar que a mim não ocorreu, é provavelmente a única coisa que faz sentido, principalmente depois do surgimento do "gigante", mas quando ele surgiu eu joguei as favas toda e qualquer hipótese que tinha formado e simplesmente fui em frente torcendo para que em algum momento as coisas se esclarecessem, o que realmente acontece.
  É um conto muito bacana sobre o valor dado às coisas erradas, sobre o foco desajustado do ser humano, sobre o que realmente se passa dentro de cada um, a meu ver também sobre pré-julgametos. O narrador pode parecer meio babaca por boa parte da história, mas no final ele levanta um questionamento que nos faz ficar pensando... e se fosse eu?
  Foi o segundo conto que li do livro, o primeiro foi Anjos Ministradores, que não entendi a relação entre título e história, mas se alguém quiser que eu faça postagem sobre é só falar nos comentários.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

[PLMC] Sebastopol no mês de Dezembro - Liev Tolstói


  Acho que o lugar mais fácil de encontrar essa história é na edição de Contos completos do autor que a Companhia das Letras lançou, ou se você foi esperto como eu e comprou aquela caixinha coisa mais linda da Cosac, lá.




"A aurora mal começa a tingir o horizonte acima do monte Sapun; a superfície azul-escura do mar já se desvencilhou da escuridão da noite e espera o primeiro raio de sol para erguer seu brilho alegre; o ar frio e nevoento sopra da enseada; não há neve - tudo está negro, mas a friagem cortante da manhã agarra no rosto, estala debaixo dos pés e só o longínquo e incessante rumor do mar, de quando em quando interrompido pelos tiros de canhão retumbantes em Sebastopol, perturba o silêncio da manhã. Nas embarcações, a ampulheta marca oito horas.
Sebastopol
 

  É assim que começa o primeiro dos chamados Contos de Sebastopol, que foi uma das coisas mais lindas que li esse ano. Talvez seja estranho falar isso, já que aqui o autor vai nos colocar no meio da guerra, e veremos pessoas mutiladas e morrendo, mas é justamente pela palavra "veremos" que esse conto é tão incrível, o narrador te conduz, você se sente como se realmente estivesse em Sebastopol vendo tudo aquilo, a escrita é cheia de emoção e sentimos uma empatia absurda pelos personagens que acabaram de aparecer e não são nem apresentados direito, o autor fez um trabalho sem igual ao inserir o leitor no ambiente, narrando tudo de forma incrivelmente visual, descrevendo os sons e expressões dos demais, colocando tudo na segunda pessoa: "você sente, você vê, você ouve" e realmente sentimos ouvimos e vemos tudo o que ele diz, foi uma experiência única acompanhar essa história e ver como o ser humano se acostuma a absolutamente tudo, vendo os companheiros morrerem e já estarem tão engessados pela guerra que já não sentem o pesar, ver mutilados exultantes porque fizeram sua parte e poderão voltar para casa com honra, sabendo que perder um braço é ter sorte no meio em que estão.

"De repente um estrondo tremendo, que abala não só os órgãos auditivos, mas todo o seu ser, o espanta de tal forma modo que você estremece no corpo inteiro. Em seguida você ouve o zunido de um obus que se afasta, e uma densa fumaça de pólvora obscurece você, a plataforma e os vultos negros dos marinheiros que se movimentavam ali. Por causa desse nosso disparo, você ouvirá diversos comentários dos marinheiros e verá a animação deles e a demonstração de um sentimento que talvez você não esperasse encontrar - o sentimento de ódio, de vingança contra o inimigo, que se oculta na alma de todos."
  Provavelmente uma das coisas mais incríveis que li esse ano, nem tanto pela história, que é também muito boa, mas principalmente pelo cuidado e maestria com o qual o autor contou, cheio de emoção e... ne se, é simplesmente fenomenal.

domingo, 17 de novembro de 2019

[PLMC] Miss Dollar - Machado de Assis




  Esse conto, como toda a obra do Machado, salvo engano, está já em domínio público, então é fácil de encontrar, mas ele foi publicado originalmente em uma coletânea intitulada Contos Fluminenses, e se você quiser uma edição bacanuda tem Esse box  que é meu novo sonho de consumo.




Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que Miss Dollar é uma inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do rosto dous grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tranças louras. A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma criação de Shakespeare; deve ser o contraste do roastbeef britânico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o português deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoutos para acudir às urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa eólia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua morte um suspiro.A figura é poética, mas não é a da heroína do romance.
  Machado começa o conto dizendo que o ideal seria não apresentar a suposta protagonista, Miss Dollar, mas passa um bom tempo levantando suposições sobre quem seria ela, até finalmente nos revelar que Miss Dollar é: uma cadela!
  Não digo uma cadela por ser uma mulher vulgar e não merecedora de qualquer respeito, digo cadela porque ela realmente é um animal, um cachorro fêmea, na palavras do autor, uma cadelinha galga.
  Um belo dia Miss Dollar foge de casa e vai parar nas mãos de um certo homem que ama cachorros e os coleciona (achei isso meio estranho, mas beleza), logo coloca a dita cuja entre os demais cachorros, mas logo descobre que a cadelinha tem dono e que estão oferecendo uma recompensa para quem encontra-la e devolve-la, o colecionador de cães (confesso não me lembrar do nome de ninguém, sei que te um Mendonça, mas não sei se é ele ou o amigo) vai até a casa dos donos para devolver, só pelo bom coração, sem interesse na recompensa e ali ele vai conhecer as donas da cadelinha, uma jovem viúva de extrema beleza e sua mãe.
  Não é difícil imaginar o que virá a seguir, então não vou nem contar. Mas é uma história super interessante, sobre traumas e a capacidade de confiar nas pessoas, sobre persistência e até sobre amor aos animais, embora de forma bem mais suave do que os demais pontos abordados.
  O conto tem alguns momentos puxados para o humor, e a conversa do colecionador de cachorros com o amigo sobre a viúva me lembrou uma conversa parecida que tive com um amigo meu sobre sua futura esposa.
  É uma história que me deu uma sensação muito gostosa ao ler, mesmo que a cadelinha tenha sido esquecida em determinado momento e tenha um fim bem triste.

segunda-feira, 19 de março de 2018

[PLMC] A Princesa do Nebrasca - Yiyun Li




  Esse é mais um conto presente no livro Tempo De Boas Preces, essa maravilhosa coletânea onde as histórias podem não ser grande coisa, mas são escritas de forma incrível.







  Aqui temos a conturbada história de Sasha, que vai da China aos Estados Unidos, grávida, para encontrar Boshen, um homem com seus quarenta e tantos anos. Mas essa não é apenas a história de Sasha, tampouco a história de Boshen, mas a história de como Yang interliga a vida desses outros dois personagens.





"Segundo nossos mestres, as verdadeiras artes nunca morrem. As verdadeiras artes têm a ver com o ato de lembrar."









    Boshen é assumidamente homossexual, e foi apaixonado por Yang, vinte anos mais jovem, e por certo tempo atuou como seu protetor.
  Yang é desumanamente belo, um rosto de deixar qualquer candidato a mister preocupado, mas profundamente melancólico e deprimido, por acasos da vida acaba se tornando garoto de programa.
  Sasha é uma moça que esbanja energia e força vital, e ao conhecer Yang exerce certo fascínio no rapaz por não ter se encantado automaticamente por ele, como sempre acontece.

   O conto se segue mostrando o surgimento natural e gradativo de sentimentos complexos entre personagens e como sempre é possível mudar de ideia.
  Outro ponto de reflexão que o conto expõe, e a meu ver é o maior foco da história. É o problema da objetificação de seres humanos, quando uma pessoa tem uma beleza acima da média logo é como se ninguém tivesse qualquer interesse em sua inteligência ou qualquer talento que possua. Tenho dois amigos Misters, misteres... qual é o plural de mister? Enfim, eles (principalmente o que está detendo o título atualmente) me falam o quanto são predados devido a aparência. O conto expõe bem quão profundas podem ser as feridas causadas por esse tipo de atitude.
  Esse, talvez, seja meu conto favorito do livro, mas uma das coisas que mais gosto nas narrativas da Yiyun é que suas histórias ficam conosco por muito tempo, nos incomodando e fazendo pensar em como as situações expostas por ela são relevantes e muitas vezes agimos mal com os que nos cercam sem nem mesmo perceber.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

[PLMC] Eu Sou o Portal - Stephen King





  Esse conto está na coletânea Sombras Da Noite, e me faz pensar como o autor conseguia vender esse tipo de coisa para as revistas.






  Como todo mundo aqui sabe, Stephen King é um dos meus autores favoritos, mas esse é o terceiro conto que leio do autor, e apesar de ser o melhor dos três que li ainda é algo bem aquém do esperado...


"Pergunto-me o que ele pensou, aquele infeliz garoto sem nome, com a peneira embaixo do braço e os bolsos inchados por um acúmulo bizarro de moedas e turistas, cheias de areia, o que ele pensou quando me viu cambaleando em sua direção como um maestro cego regendo uma orquestra lunática, o que ele pensou quando a última luz do dia caiu sobre as minhas mãos, vermelhas e abertas, brilhando com todos aqueles olhos, o que ele pensou quando as mãos fizeram aquele gesto súbito no ar imediatamente antes de sua cabeça explodir."




     O conto consiste em uma conversa entre dois veteranos de guerra e um deles está contando como foi infectado por algo, talvez alienígena e que depois de um tempo começaram a aparecer olhos em suas mãos, olhos esses pelos quais ele não pode enxergar, mas que causam uma dor excruciante a qualquer contato.

 



  Os olhos conseguem controlar o personagem em alguns momentos e o obrigam a fazer coisas que aparentemente não tem nenhum propósito, além de causar "terror" ao leitor.

  O conto não nos traz grandes reflexões, acho que por isso achei ele tão sem sal, a história até fica interessante quando o desespero do protagonista começa a induzi-lo a ações desesperadas para se livrar dos "olhos".

  Em suma, é um conto macabro com um final triste, mas que não marca e não acrescenta muito à ninguém.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

[PLMC] Pequeno País - Nick Hornby

  Mais uma vez o PLMC está me apresentando autores que queria muito conhecer, esse conto abre a coletânea, deixe-me pegar fôlego, Foras da lei, barulhentos, bolhas raivosas, e algumas outras coisas que não são tão sinistras, quem sabe, dependendo de como você se sente quanto a lugares que somem, celulares extraviados, seres vindos do espaço, pais que desaparecem no Peru, um homem chamado Lars Farf e outra história que não conseguimos acabar, de modo que talvez você possa quebrar esse galho. Sim, esse é o título do livro.


  Falando rapidamente, não era exatamente o que eu esperava. O conto é infanto-juvenil e visa principalmente entreter, não tem nenhuma grande lição nas entrelinhas.
  Conhecemos um país ridiculamente pequeno, tão pequeno que nosso narrador é obrigado a entrar na seleção de futebol porque, literalmente, não havia mais ninguém no país inteiro.
  Entre o garoto se tocar que o país dele tem um tamanho que proporciona qualquer um atravessá-lo, andando tranquilamente... e prendendo a respiração durante toda a travessia sem nem sequer sentir um desconforto que seja e o momento que ele é obrigado a entrar para o time passamos por várias cenas hilárias, e ao conhecermos a seleção nacional, com todos os seus absurdos, continuamos rindo.
  Até que o narrador, uma criança com 12 anos, se não me engano (ou seriam 15?) acaba experimentando os dissabores da vida adulta.
Então ser adulto é isso, pensei. Pode vir alguém e te derrubar na hora que quiser, e ninguém diz nada. Aquilo me fez sentir vontade de ficar mais jovem a cada ano, em vez de mais velho."
 
   Apesar de não ter lá grande profundidade, podemos tirar algumas pequenas lições, como a transição da juventude para a vida adulta é difícil e raramente estamos preparados para ela, como pequenas decisões podem fazer grande diferença, como a inteligência geralmente vence a força bruta, e, principalmente, como rir é o melhor remédio, e precisamos aprender a descontrair e tornar a vida mais divertida e, consequentemente, menos estressante.



domingo, 16 de abril de 2017

[PLMC] Depois de Uma Vida - Yiyun Li



  Esse conto se encontra na coletânea Tempo De Boas Preces, e devo aproveitar esse momento para dizer que estou me apaixonando por essa autora S2





  Aqui conhecemos a história da família Su. Como eles se apaixonaram, se casaram, as dificuldades que encontraram, já que eram meio que parentes a família não concordava com o relacionamento. E o quanto a vida se tornou difícil ao terem sua primeira filha, Beibei, que nasceu com retardo mental e paralisia cerebral.


"Beibei nasceu apesar dos avisos de todos os parentes, que desde o começo não haviam concordado com um casamento entre primos. Quando veio ao mundo, os médicos disseram que ela provavelmente iria morrer antes de completar dez anos; seria um milagre se chegasse aos vinte. Eles sugeriram que o casal cedesse a recém-nascida para servir de cobaia na faculdade de medicina. Afinal de contas, ela não tinha qualquer outra utilidade. O sr. e a sra. Su sentiram um calafrio ao pensar em seu bebê boiando dentro de um jarro de formol e, depois de mãe e filha serem liberadas, nunca mais levaram Beibei ao hospital."
  Apesar disso, o casal continuava apaixonado e se esforçavam muito para manter Beibei escondida,  um pouco, sejamos sinceros, por vergonha, mas principalmente pelo que poderiam fazer a ela se a encontrassem, lembrando que estamos falando da China, um país com controle de natalidade onde todos os cidadãos devem contribuir com a sociedade de alguma forma.
  Com o passar dos anos, o sr. Su convence sua esposa a ter outro filho, para compensar, de certa forma, a tristeza de ter uma filha doente que impede-os de receber visitas e suga todas as energias do casal.
"No ano do décimo aniversário de Beibei - com certeza um milagre digno de comemoração -, seu marido mencionou pela primeira vez  a possibilidade de terem um segundo filho. Por que?, perguntou ela, e ele falou em um casamento mais saudável, uma família mais completa. Ela não entendeu seu raciocínio, e soube, mesmo quando Jian ainda estava crescendo dentro de sua barriga, que eles teriam um filho normal e que isso de nada iria adiantar para salvá-los do que já fora destruído."
   O conto tem também outras subtramas mas não vou me estender muito nelas. É uma história tocante e incômoda. Sobre amor familiar, a devoção dos pais pelos filhos, quase nunca recíproca, até que ponto vale se sacrificar por supostas causas perdidas, sobre deixar partir. Além disso ele fala sobre valorização do cônjuge, de como ele(a) merece respeito, apesar de qualquer coisa, sobre o amor que une um casal, uma família, amigos... Sobre suportar aqueles que não tem filtro, mas não desperdiçar muitas energias tentando tirar alguém de uma buraco que insiste em continuar cavando. Sobre honestidade em tudo que for fazer, e sobre a eterna luta que é a vida.
  Passei muito tempo sem saber se tinha gostado ou não da história (apenas um adendo, detestei a Sra. Fong), mas a escrita da autora é tão delicada, e ela expõe tudo com "talento, visão e respeito" como diz na capa do livro. Não tem como não se encantar, apesar dos choques de realidade onde você se pega julgando os personagens e sofre um estalo, e se fosse eu no lugar dele?


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

[PLMC] Memórias de Um Marcador de Pontos de Bilhar - Liev Tolstói




  O conto de hoje está no primeiro volume dos Contos Completos, naquela edição bacana da Cosac que está à beira da extinção, pelo que andei vendo.







  O conto nos é narrado por um, como diz o título, marcador de pontos de bilhar. No local de trabalho dele ele acaba conhecendo muitas histórias. E conhece também um homem peculiar, vive jogando a dinheiro, e nunca vence.

E aí começamos a jogar o dobro ou nada. Ganhei dele oitenta rublos. E o que foi que aconteceu? Passou a jogar comigo todos os dias. Esperava até não ter mais ninguém, porque, é claro, tinha vergonha de os outros verem que ele jogava com o marcador de pontos. Uma vez, por algum motivo, ficou muito irritado, já me devia sessenta rublos.


  E então acompanhamos o declínio desse personagem, vemos ele se tornar um viciado em jogo, que está a ponto de perder tudo. O desespero e a depressão que vão se apossando aos poucos do personagem.



  Antes achava que a proximidade da morte elevaria minha alma. Enganei-me. Daqui a quinze minutos, não existirei mais, porém meu modo de ver não mudou em nada. Vejo, ouço e penso da mesma forma; as mesmas estranhas inconsequências, embriaguez e leviandade nos pensamentos, tão contrárias à integridade e à lucidez que só Deus sabe por que foram dadas ao homem sonhar. Os pensamentos sobre o que virá no além-túmulo e sobre o que irão falar amanhã de minha morte na casa da tia Rtícheva se apresentam ambos com a mesma força em minha mente. Que criação incompreensível é o homem!

  É uma história muito bem contada sobre como levamos a vida de forma leviana e não damos o devido valor ao que possuímos, seja em bens ou pessoas... não que possuamos pessoas, mas vocês entenderam.
  Como muitas vezes teimamos em não mudar de atitude, mesmo que nossas ações estejam, visivelmente, nos levando para a lama. E como tudo poderia ter sido diferente com apenas uma leve mudança de pensamento, um pequena ação.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

[PLMC] Jerusalem's Lot - Stephen King





           Este conto abre a coletânea Sombras Da Noite, livro que me fez ver que gosto muuuito mais dos romances do autor do que dos contos.





  O conto é escrito em formato de cartas, e eu o li na esperança de que tivesse alguma ligação com o livro 'Salem.
 


  A única similaridade entre o romance e o conto é a cidade que dá nome a ambos. Que, obviamente, é também o cenário de ambos.
  Mas falaremos do livro em um futuro próximo, certo? Certo!
 

    O conto é formado por cartas, um personagem está investigando uma igreja profanada nas proximidades da cidade, e manda cartas relatando suas descobertas a um amigo. Confesso que já não me recordo muito do decorrer da história, mas algumas coisas medonhas começam a acontecer, coisas que tornou o conto a coisa mais assombrosa que já li do autor (e eu já li O Cemitério).
  O final do conto me lembrou bastante o final de A Casa Maldita do Lovecraft.
  Enfim, não é um conto que me marcou muito, escrito com a óbvia intenção de chocar o leitor e ele faz isso. Mas não é um choque que perdura muito.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

[PLMC] Extra - Yiyun Li




  O referido conto está no livro Tempo De Boas Preces, que, confesso, comprei por causa da capa e do título, nem sabia que se tratava de uma coletânea de contos.





  A história é bem simples, temos Vovó Lin, uma mulher com cerca de 50 anos que não  percebeu a passagem do tempo.
"Vovó Lin se torna esposa, mãe e avó. Não consegue mais lembrar em que ano de sua vida deixaram de chamá-la de Tia Lin para chamá-la de Vovó Lin; as pessoas pensam que as mulheres solteiras envelhecem mais depressa. Mas isso não tem mais importância, porque ela se sente bastante qualificada para aquela sua posição."




   Vovó Lin acaba em um casamento arranjado com um homem bem mais velho, pois ele necessita de cuidados e atenção que seus filhos não estão dispostos a dar, ela acaba se afeiçoando ao homem, mas não tem uma vida de casada com ele, seria mais uma vida de enfermeira. Quando o homem morre os filhos mexem os pauzinhos para que ela não receba a parte da herança que caberia a ela como esposa do falecido, além de colocarem-na no olho da rua.


  desamparada, sem família, trabalho, dinheiro nem oportunidade, ela vai migrando de emprego a emprego, fazendo de tudo e jamais sendo reconhecida.

"'A felicidade do amor é um meteoro que passa chispando; a dor do amor é a escuridão que vem a seguir.' Uma menina passa por Vovó Lin na rua cantando sozinha com uma voz melodiosa. Vovó Lin tenta alcançá-la; mas esta avança depressa demais, e a canção também. Vovó Lin põe a bolsa de lona no chão para recuperar o fôlego, ainda segurando na outra mão a marmiteira de aço inox. Todas as pessoas na rua parecem saber aonde suas pernas as estão levando. Vovó Lin se pergunta quando deixou de ser uma dessas pessoas."
  Como você deve ter percebido é uma história triste, onde também podemos ver o preconceito que domina a sociedade, como pré-julgamos as mulheres de forma geral, mas principalmente quando são de uma idade um pouco avançada, solteiras e pobres. O conto me fez pensar bastante o quanto as pessoas se aproveitam de outras, ah, você está trabalhando nessa loja então vou experimentar todas as calças e depois você dobra tudo de novo porque não vou levar nada... trabalhando no comércio vejo muito disso.
  Até que ponto estamos sendo justos com o próximo, será que não temos maturidade o suficiente para desenvolvermos um pouco de empatia?
  Adorei a escrita da autora, mal posso esperar para ler o restante dos contos.


domingo, 24 de julho de 2016

[PLMC] O Homem Que Era Só Metade - Valter Hugo Mãe




  O conto sobre o qual vou comentar está no livro Filho de Mil Homens, que você pode comprar clicando aqui, lembrando que sempre que comprar algo através dos links que indico você estará ajudando o blog.





  Aqui conhecemos um homem que levou sua vida tranquilamente e sem muitos vínculos afetivos, os romances que teve acabaram não dando certo e ao chegar aos quarenta anos percebe que viveu apenas metade do que a vida tinha a oferecer.



  Nosso protagonista, chamado Crisóstomo (referência clara ao mais famoso arcebispo de Constantinopla), vive da pesca e passa os dias lamentando não o fato de não ter esposa, mas o fato de não ter um filho. Alguém para criar e transmitir o conhecimento que a vida lhe deu.
  Entre acordar e ir para o barco, sofrendo pelas oportunidades desperdiçadas e com pouca esperança que sua vida venha a ter alguma alteração.

"Depois, sentindo-se estranho mas aliviado, ouviu o mar de sempre, o vento muito ameno passando, e reparou outra vez em como o céu estava estrelado e suas traineiras saíam. Tinha de seguir para trabalhar. Levantou-se, sacudiu a areia e quase se riu. Se era verdade que se sentia um homem só com metade de tudo, também era verdade que uma parte da sua dor ficaria ali, como se de um saco se esvaziasse. A areia haveria de a fazer deslizar até o mar e o mar lavaria tudo. Acontecia assim porque, aos quarenta anos, o Crisóstomo assumiu a tristeza para reclamar a esperança."
   É uma história profundamente melancólica sobre o passar do tempo e a necessidade humana de complementar sua vida com outras pessoas, uma história que mostra que nunca é tarde para corrermos atrás dos nossos sonhos.
  
  A escrita do autor me lembrou bastante a do Alejandro Zambra, não sei se foi pelo fato de que eu esperava algo mais de ambos os autores. Confesso que gostei mais da forma do Valter conduzir a história.

  Até o momento não é nada extraordinário, vou ler o restante dos contos na esperança que sejam mais impactantes.

domingo, 10 de julho de 2016

[PLMC] A Rouxinol e a Rosa - Oscar Wilde




  Compre pela Amazon e ajude o blog.



  Olá pessoas e animais que eventualmente saibam ler.
  Hoje vim falar sobre um conto que até pouco tempo jamais tinha sequer ouvido falar...
  Apesar de ter adorado O Retrato de Dorian Gray (depois da página 100, porque né) nunca fui atrás de ler outras coisas do autor. A um tempinho vi este vídeo e minha curiosidade foi desperta. Mas daquele jeito: "Ah, quero ler isso... se esbarar nele ou os céus se abrirem e uma edição que contenha essa história caia inexplicavelmente em frente a minha porta com um bilhetinho dizendo: 'Boa leitura' em uma caligrafia enfeitada com um 'dezinho' no canto inferior direito do papel" - Foi só lendo O Deserto Dos Meus Olhos (romance escrito pelo carinha do vídeo mencionado acima) que falei: "preciso ler, abram-se céus!!" E corri para a Amazon atrás desse conto e fico exultante ao ver que ele é vendido separadamente como e-book lá na loja... sem perder tempo já o baixei e li.
  No livro já mencionado esse conto é citado em uma das minhas cenas favoritas da história, e ele figura com o final de O Grande Gatsby em um certo diálogo. O fato é que acho que poucos livros tem uma frase final que sequer chegue perto da profundidade do fechamento do clássico americano - E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado - apesar de não amar tanto assim a história em si.
  Mas chega de enrolação e vamos falar sobre o que viemos falar: Eu sabia que seria um conto seria triste, mas não imaginava que seria sobre as diferentes formas de ver o amor:

"Tudo o que eu lhe peço em troca é que você ame de verdade, posto que o Amor é mais sábio que toda a filosofia, e embora esta seja mais sábia e mais poderosa que o próprio Poder, o amor é, ainda assim, mais poderoso e mais sábio que ambos. Suas asas são vermelhas como o fogo e, como o fogo, é o seu corpo. Seus lábios são doces como o mel; e sua respiração é como um místico incenso."
"Que coisa tola o Amor é. Não possui a metade da utilidade que a lógica. Ele, por si, não prova nada, e sempre está nos fazendo acreditar em coisas que não irão acontecer, coisas que não são reais, coisas que jamais serão. De fato, o amor não é prático, e, nestes tempos, ser prático significa ser tudo. Portanto, eu voltarei para a filosofia e para a metafísica."
  Quem me conhece sabe que não tenho uma veia romântica e esse tipo de assunto costuma me desagradar. Mas o conto vai muito além da análise ao amor, se é verdadeiro ou não. Ele trata sobre bondade e sacrifício pelo que se acredita, sobre reconhecimento e ingratidão.
  É um conto que destrói corações (para quem já leu: me perdoem o trocadilho) e que estimulou meus canais lacrimais como não acontecia a um bom tempo.

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