"Desde que nasceram, ela tem medo de tudo. Tem, acima de qualquer coisa, medo de que eles morram. Nunca fala disso, nem aos amigos nem a Paul, mas está certa de que todos pensam o mesmo. Tem certeza de que, assim como ela, já aconteceu de se perguntarem, enquanto olham para os filhos dormindo, o que sentiriam se aquele corpo fosse um cadáver, se seus olhos fechados ficassem assim para sempre."
Há muito tempo ouvia falar sobre este livro, há muito tempo tinha vontade de lê-lo e há muito tempo o tinha na minha estante... então enfim criei vergonha para pegar para ler, e quase nem me tomou tempo.
Logo de cara a autora já nos conta que "O bebê está morto", o que nos deixa curiosos pra saber como isso aconteceu... Dificilmente alguém chega a esse livro sem saber um pouco da sua premissa, então essa frase inicial não é bem uma surpresa por si, é uma surpresa maior saber que isso já é jogado na cara do leitor antes de a gente sequer saber que existia um bebê.
Aqui conhecemos Myriam, uma advogada que largou o emprego pra se dedicar ao cuidado de seus dois filhos pequenos, mas ela já não quer isso, então conversando com o marido eles decidem contratar uma babá para tomar conta das crianças e assim Myriam poderia retornar ao trabalho.
Demoram um pouco para conseguir encontrar uma babá que desperte a confiança necessária para o trabalho e se encaixe nos requisitos que o casal, e Myriam, em especial, procurava... Até que surge Louise... uma mulher um pouco mais velha que Myriam, que já tem experiência e excelentes referências de seus antigos empregadores...
Louise logo se mostra uma babá muito melhor do que o esperado... ela não se limita às suas funções de babá, ela estende a sua competência para o restante da casa, fazendo também às vezes de faxineira e cozinheira. Faz tudo com excelência, as crianças a adoram e o mundo parece perfeito e com um agradável cheiro de petricor...
Mas por trás de toda essa excelência de Louise há um ser humano real, que por mais boa que tente ser, é assombrada não apenas por erros do passado, mas por um relacionamento complicado com a própria filha e um casamento em frangalhos que só faz mal a ela.
É um livro de narrativa simples, mesmo que brinque com a linha cronológica durante toda a história, o leitor consegue acompanhar bem o fio da meada e identificar o que é presente, passado e imaginação... pelo menos na maior parte do tempo.
A tensão é crescente, vamos vendo pequenas rachaduras na armadura de perfeição que Louise tenta manter, ao mesmo tempo que vemos Myriam cada vez mais distante dos filhos. A ponto de negligenciar sua responsabilidade enquanto mãe, exatamente como seu marido faz como pai.
Um livro que mostra que erros são cometidos, que egoísmo pode ser um sentimento extremamente perigoso, e que a confiança pode custar muito caro.
O livro é levemente baseado numa história real ocorrida em Nova York em 2012... o livro também trata, muito brevemente, a questão da imigração.
Leïla Slimani (1981) é uma escritora e jornalista franco-marroquina. Ela também é diplomata francesa, na qualidade de representante pessoal do presidente francês Emmanuel Macron na Organização Internacional da Francofonia. Nasceu em Rabat, no Marrocos e vive desde os 17 anos em Paris. Publicou seu primeiro romance em 2014. Seu segundo livro, publicado no Brasil como Canção de Ninar, venceu em 2016 o Prêmio Goncourt.




Nenhum comentário:
Postar um comentário