"Era o pior que poderia acontecer, de fato. Ele não conseguia imaginar uma situação mais desastrosa, embora fosse proibido imaginar. Não podia impedir a si mesmo de pensar em sua filha passeando pelos corredores do prédio da Autoridade de Censura, como um personagem que escapara de um livro ilustrado. Ela era a mistura de todas as personagens imaginárias, e ele nunca entendeu de onde ela conhecia todas aquelas histórias. Histórias que nunca contou a ela e das quais não se lembrava muito bem, embora, de modo misterioso, lhe fossem familiares."
Será que lembro como é fazer isso??
Aqui temos um livro com um gostinho de fábula, uma daquelas histórias onde ninguém tem nome próprio, é todo mundo chamado pela sua definição predominante: O Censor, o Presidente, a Filha, a Livreira...
Começamos a história com nosso protagonista iniciando sua carreira como censor de livros, ele trabalha na Autoridade, um setor do governo responsável por proibir os livros com qualquer alusão ao governo, a Deus, a sexo e a qualquer outra coisa que possa colocar em xeque o controle do Estado sobre o povo.
Como os censores fazem parte do povo que deve ser controlado pelo sistema, a principal regra que eles devem seguir é que não podem interpretar nada do que leem, e por causa disso logo eles nem tem mais qualquer capacidade interpretativa mesmo (qualquer semelhança com o mundo atual seria mera coincidência?).
Mas como nosso protagonista é um novato, ele recebe apenas alguns livros bem tranquilos, com nada que poderia estimular o pensamento e colocar o sistema em risco caso abrisse os olhos de seu povo. Aos poucos ele começa a ansiar por um trabalho mais desafiador, ele quer um livro onde ele possa encontrar o que proibir... ao mesmo tempo que ouve histórias sobre um velho censor, agora conhecido apenas como Secretário, que dizem ter ficado louco pois cometeu o erro de interpretar o que lia.
Como qualquer um que leu isso até aqui é capaz de supor, o protagonista vai conseguir um livro mais... problemático, na concepção da Autoridade, para trabalhar, e este livro será o estopim de sua mudança. O livro em questão é Zorbás, o Grego (Ou A Vida e Aventuras de Aléxis Zorbás) de Nikos Kazantzákis.
Todo o livro é repleto de alusões e referências a outras obras consagradas da literatura, a principal dela claramente é Farenheit 451, da Ray Bradbury, no que se refere à premissa de livros proibidos e tudo o mais... inclusive este livro é uma prova de como a mais famosa obra de Bradbury poderia sim ser muito melhor do que realmente é. Mas as referências não param por aí, temos claras referências a Zafón e sua tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos e também a Alice no País das Maravilhas.
Já que mencionamos Alice, vamos falar do vasto mundo de histórias infantis que povoam o imaginário da filha do nosso protagonista... a Filha é uma criança inteligente, imaginativa e bastante criativa... o que é visto com péssimos olhos nesta sociedade... uma vez que imaginação estimula a criatividade, e esta faz com que as pessoas inventem, prosperem, se sobressaiam... coisa inaceitável para um governo que impõe uma igualdade forçada... que como toda igualdade institucionalmente imposta, só pode se elevar até o ponto mais confortável do membro mais pífio de sua sociedade.
Como a imaginação é vista com maus olhos, uma das partes mais interessantes do livro é como o Estado lida com a imaginação natural das crianças, tratando-a como uma doença que deve ser extirpada... e todo o drama do personagem e de sua Esposa com essa situação... ainda mais considerando que mesmo que acompanhemos a libertação do protagonista das garras ideológicas e ilusórias do governo, sua esposa não está trilhando o mesmo caminho que ele....
A trama vai se encaminhar para uma espécie de conspiração de resgate à cultura e à liberdade, mas essa parte vou deixar que descubram por completo quando forem ler o livro... e espero de verdade que o façam, facilmente um dos melhores que li neste ano, até o momento.
Além de todas as referências a outras obras e ao tom de fábula que comentei anteriormente, o livro tem vários subtextos, coisas que você lê e se pega pensando no que podem significar entre o que está e não está escrito.... um exemplo disso é o fato de o prédio da Autoridade ser infestado de coelhos... uma clara referência ao Coelho Branco de Alice... mas será que realmente é só isso? Será que o fato de serem alimentados, e de quem é a personagem que os alimenta não quer dizer algo mais, trazer uma espécie de mensagem velada? Será que estou só teorizando coisas que não querem dizer nada e só estão no livro porque a autora quis colocar, mesmo que não tenham um significado? É possível, é até bem provável...
Pra finalizar reforço aqui a recomendação de um dos melhores livros que já li, que mostra um excelente domínio e conhecimento por parte da autora, que mesmo tendo seus eventos um pouco atropelados, devido ao número reduzido de páginas (apenas 220) consegue cumprir o que pretendia, lançando mão de uma bagagem literária bastante vasta. Acredito ser o primeiro livro que leio de um autor de origem kwaitiana, e posso garantir que foi uma excelente porta de entrada para a literatura deste país.



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