domingo, 11 de janeiro de 2026

[Opinião] Benjamin - Federico Axat #565

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"Ben había tenido que lidiar con ese odio irracional que su madre parecía empecionada en inyectar al prójimo. Andrea sintió una enorme pena al pensar en su hermano y en su incapacidad para enfrentarse a Danna como ella lo había hecho apenas unos minutos atrás."

  Federico Axat me conquistou em meu primeiro contato com ele, quando li O Pântano das Borboletas, e logo já fui atrás de outras obras... infelizmente, a única outra obra dele traduzida no Brasil é um livro que, aqui, foi chamado de Mate o Próximo, que também é um ótimo livro, mas não no nível do primeiro mencionado...
  Enfim, Benjamin muito me chamava a atenção (até pela capa que remete ao livro das borboletas), principalmente por se tratar de seu primeiro romance... mas como ele é ignorado pelas editoras brasileiras, fui enrolando... até que enfim resolvi encarar o livro em espanhol mesmo (o autor é argentino).... Não falo espanhol, mas é um idioma suficientemente próximo do português pra encarar sem medo... e se a diáspora cubana e venezuelana fizeram algo pelo brasileiro foi proporcionar maior contato com o espanhol. No começo o meu maior problema foi com a retenção do texto, eu lia, entendia, mas, acredito que por se tratar de outro idioma que não estava acostumado a ler, ele sumia da minha mente... o que é engraçado, pois leio em inglês e isso não acontece, mas enfim, foi apenas o começo... logo a coisa engrenou e pude aproveitar o livro.
  Aqui conhecemos a família de Ben, um menino de 9 anos... ele tem uma mãe meio megera (Danna), uma irmã adolescente fútil (Andrea) e um pai banana (Robert)... tem ainda o melhor amigo do pai, que funciona como uma espécie de tio para as crianças (Mike).
  A história se passa em Carnival Falls, a mesma cidade fictícia de O Pântano das Borboletas... cidade que ficaria nos EUA, se existisse realmente. Tudo começa com Danna tendo uma discussão, se é que posso chamar assim, com Ben... Como ela está prestes a sair em viagem com o marido para uma espécie de segunda lua de mel, Ben decide se esconder, porque sem saber do paradeiro do filho, eles não poderiam simplesmente ir viajar e assim os planos da mãe seriam frustrados... e é exatamente o que ele faz... se esconde no sótão abandonado da casa e observa como a casa funciona com sua ausência, enquanto todos acham que ele fugiu de casa.
  Logo as buscas por Ben começam, e todas as pistas apontam para o desfecho mais trágico possível.
  Quem já leu alguma coisa do autor, sabe que ele é ótimo em fazer o leitor de trouxa, e aqui não é diferente... você não pode confiar no que está lendo, você não pode confiar nos personagens e nem no narrador... nada é o que parece, mas ele consegue te envolver tanto na mentira quanto na verdade.
  Acompanhamos vários desdobramentos envolvendo os personagens que nos são apresentados... como a vida continua sem a presença de Ben e como isso afetou ou não cada um deles... ao mesmo tempo que um manto opressivo se fecha ao redor da criança enfiada no sótão, tendo sua humanidade minada pouco a pouco.
  Mestre em criar tensão, jogo de espelhos e em manter o leitor interessado, ansioso e apreensivo, Federico Axat mostra que dominava todas essas artes já no seu primeiro livro. Com reviravoltas inesperadas (você tem certeza que tem uma reviravolta a caminho, mas jamais imaginará como ela acontece) e personagens cativantes,capazes de te fazer sentir o mais variado misto de emoções, Benjamin é, sem dúvida, um dos melhores thrillers psicológicos que você vai encontrar disponíveis... pode encarar em espanhol mesmo, é super tranquilo de acompanhar.





Federico Axat nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1975. Engenheiro, ele começou a escrever por interesse e vocação. Em 2010, o autor argentino lançou seu primeiro livro, "Benjamin", publicado na Espanha, na Itália e no México. "O Pântano das Borboletas" foi sua estreia no Brasil. "Mate O Próximo", também lançado no Brasil, é um magnífico livro de Mistério, Drama, Crime e Suspense.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Leitor Invisível

  Ele estava ocioso, era um sábado que não tinha serviço e tinha marcado uma hora no barbeiro no meio da tarde, único horário disponível, fim de ano já era um milagre ter conseguido um horário... Não que ele ligasse muito para, como dizem hoje em dia, ficar na régua... mas seu cabelo já estava começando a incomodar (principalmente aos outros) e ele não queria raspar em casa com a máquina dourada que comprara na Shopee para raspar a barba... boa ideia! Iria aproveitar a ida a barbearia e pedir pra dar uma ajeitada na barba arrepiada e desgovernada, na qual tinha encontrado um fio branco recentemente, o segundo ou terceiro da sua vida... Ele não pensava muito sobre isso, sempre acreditou que o mundo acabaria antes que ele tivesse a chance de envelhecer a ponto de isso se tornar um incômodo real.

  Se tratando de um sábado preguiçoso, não sentiu vontade de cozinhar... até porque nem havia feito compras para a casa naquele mês, afinal, dezembro tem muita confraternização para ir e não precisar cozinhar, mas nenhuma para almoçar naquele sábado, então resolveu sair de sua casa, nos limites do perímetro urbano, e ir até o centro almoçar, depois de almoçar resolveu abrir mão de seu sagrado cochilo vespertino e vagou um pouco pelo centro da pequena cidade, assim não precisaria voltar para casa e enfrentar novamente a vontade de ali permanecer para ir, enfim, ao barbeiro.

  Cidade pequena, sábado a tarde, mesmo no fim de ano, boa parte do comércio estava fechado, por sorte a intenção não era andar pelo comércio ou fazer compras, ele odiava fazer compras. Havia levado o livro que estava lendo no momento, um deles, no caso, já que há muitos anos não se atinha a uma única leitura por vez, sempre lendo, pelo menos, cinco livros diferentes ao mesmo tempo, alternando de um pra outro conforme seu interesse no momento. 

  Pensou em se dirigir ao lago da cidade, sentar próximo de uma margem e ficar lendo ali, até próximo da hora marcada para a sua tosa, mas como estava insuportavelmente calor, só imaginou a quantidade de borrachudos que o esgotariam antes de terminar um capítulo que fosse. Sem muitas opções viáveis e suficientemente solitárias, resolveu já ir até a barbearia e ficar lendo lá, até que chegasse sua vez, e assim fez.

  A barbearia tinha uma ala de espera bastante convidativa, ao entrar ele disse à balconista/atendente que estava bastante adiantado para o horário dele, mas esperaria por ali mesmo. A funcionária disse para ficar à vontade e ofereceu bebidas, que ele educadamente recusou, foi até o final do balcão (onde supôs que ficavam as pessoas que aceitavam as tais bebidas) sentou numa cadeira, recostou-se na parede e abriu seu livro.

  Já fazia um bom tempo que vinha lendo este, embora ainda estivesse longe da metade da história, é de um autor inglês, não muito conhecido (os melhores raramente são) com premissas bem inventivas e intrigantes. Ele já havia lido uma coletânea de histórias curtas e ficado tão maravilhado que já havia ido atrás e conseguido todos os outros livros do autor que haviam sido traduzidos, mas este ainda era o segundo que lia, o primeiro romance. O livro acompanhava uma senhora desagradável, daquele tipo de personagem que você ama, mas que odiaria ter que conviver, alternando entre seus últimos momentos de vida e seu início no pós vida... mas é um pós vida diferente de tudo que se imagina, não tem nada a ver com conceitos cristãos ou espíritas (que aqui alguns dirão serem iguais, embora não sejam).

  Ele aproveitava a leitura, com a música de fundo da barbearia em volume baixo, sem incomodá-lo, e com mais ninguém na área reservada para espera... infelizmente não durou muito. Logo apareceu uma mulher que parecia amiga da funcionária (balconista/atendente/caixa) e elas logo engataram uma conversa animada e em um volume desnecessariamente alto. Ele não tinha dificuldade para se concentrar na leitura e ignorar todos os sons ao redor, normalmente... recentemente ele havia passado por um momento de estafa mental, resultado do trabalho, do convívio, do declínio moral da humanidade, da percepção de finitude e da desesperança com o país, pra não falar com o mundo... isso prejudicou bastante seu hábito de leitura, que estava retomando aos poucos, mas bem longe do que costumava ser, incluindo sua capacidade de concentração.

  Ele revirou os olhos um pouco e focou no livro, a protagonista estava narrando seus últimos dias de vida, depois que uma de suas filhas a tirou do hospital para cuidar dela em casa... ou para que morresse no conforto de casa ao invés do ambiente estéril e impessoal do hospital... era nisso que o leitor queria acreditar, mesmo com a apresentação que teve das filhas (uma controladora e outra drogada e incapaz) que havia lido da última vez que pegou aquele livro, ainda antes do seu pequeno colapso mental. A protagonista estava fraca, magra e com dores, enquanto Gustavo, o amigo em comum da funcionária da barbearia e da cliente (o que ela estava fazendo ali? Eles não atendiam mulheres) tinha vomitado no colo da Amanda na festa da noite anterior (ah, claro, estava bebendo e fofocando), o que era um enorme vexame, ele precisou ser levado pra casa às pressas pra que os amigos da Amanda não começassem uma briga por causa do descaso dele com a... er... dama...

   No livro a protagonista ouvia a filha conversar com uma cuidadora, provando que a ideia de tirar a mãe do hospital para ter um cuidado dedicado de uma filha que a amava era só ilusão do leitor, enquanto chegam mais duas mulheres e um homem na barbearia, acrescentando suas vozes à cacofonia de risadas e assuntos humilhantes para eles e para os protagonistas dos casos narrados. Não bastasse o escândalo, eles se sentam irritantemente próximos ao leitor, que vê sua adorável protagonista assistir a entrada triunfante da filha e da nova cuidadora/enfermeira em seu quarto conversando sobre o que farão com ela, enquanto ainda está viva. Os assuntos da manada de hienas, como o leitor passou a chamá-los mentalmente, prosseguiam em rápida sucessão, todos eles poderiam ser tema de algum ensaio sobre a decadência e imoralidade humana.

  A filha e cuidadora falavam sem parar e ignoravam a existência da matriarca que pensava, com certo desalento, "elas falam como se eu nem estivesse presente" e neste momento o leitor se sentiu extremamente ligado àquela personagem, pois a cacofonia de gritos, risadas e fofocas que causavam vergonha alheia não cessavam e ignoravam totalmente a existência dele, que estava ali, provavelmente recebendo gotículas de saliva do bando de hienas de tão perto que estava.

  Mas ele admirava como conseguiam manter uma conversa com tamanha fluidez, sem nenhum assunto minimamente construtivo ou que, pelo menos, não denegrisse terceiros que não estavam ali para se defenderem... Ele começou a pensar se suas conversas são, realmente tão diferentes assim das que ele ouvia do bando de hienas, tinha certeza que eram menos vexatórias, mas talvez não muito mais nobres. Pensava em como era fácil conhecer detalhes que deveriam ser íntimos, de pessoas que ele nem sequer conhecia, simplesmente ouvindo de trás de um livro, onde estava melhor escondido do que no cômodo vizinho. Pensou em abraçar a velha senhora que estava morrendo no livro, pensou em chegar em casa e escrever tudo isso... então o chamaram, era a sua vez de ser atendido.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

[Opinião] Jornada de Três Dias - Joseph Boyden #564

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"Vou contar aos anciões as coisas muito estranhas que vimos: os aviões que voam bem alto no céu e disparam metralhadoras uns nos outros; os corpos dos mortos em todo canto, de modo que ficamos acostumados a vê-los inchando na chuva; a conversa sobre a ameaça de pequenas bombas que soltam gás venenoso que queima a garganta e os pulmões de um homem de um jeito que ele se asfixia até ter uma morte dolorosa; as saídas sorrateiras como uma raposa à noite, consertando arame e atacando as crateras inimigas; as granadas que vêm assobiando do lugar nenhum em um manhã calma e explodem os braços, a cabeça e as pernas do homem com quem falamos um dia antes. Mas especialmente vou contar aos anciãos como depois de um ataque de artilharia a vida volta ao normal muito depressa, como a mente da pessoa não permite que ela fique pensando muito no horror da morte violenta, porque se permitir isso vai deixá-la louca."

  Fui para este livro completamente cego para este livro, já tinha ouvido alguém elogiar, mas não lembro direito quem e nem qual era o elogio... como bom verme que adora edição padronizada que sou, já estava de olho nesse livro, e acabei adquirindo ele pelos sites de usados da internet... Só depois que ele chegou por aqui que vi que se tratava de um autor canadense... e Canadá foi o último país sorteado para o meu projeto de Volta ao Mundo em 50 Livros... então pensei: Por que não?
  Decidido que este seria meu representante do Canadá nesse meu projetinho, fiz então o vídeo abaixo... Acho que me expresso muito melhor escrevendo do que falando, mas é o que temos pra hoje.


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

[Breve Comentário] O Fim do Mundo e o Impiedoso Pais das Maravilhas - Haruki Murakami

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"Sei o quanto isso é doloroso para você. Mas todos temos de passar por isso. Aguente firme também. Contudo, mais tarde chegará a redenção. Quando isso acontecer, você não terá mais angústias e sofrimentos. Todos irão desaparecer. Essas emoções passageiras não têm nenhum valor. Não falo por mal, mas esqueça a sua sombra. Aqui é o Fim do Mundo. Aqui o mundo acaba, não há mais para onde ir. Por isso você não pode ir mais a lugar algum."



 

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